PAULA VALÉRIA DOMINGO

Gestão Moretti: quase 17 meses depois, a culpa ainda é do antecessor?

Por Paula Valéria Domingo
· 2 min de leitura
Gestão Moretti: quase 17 meses depois, a culpa ainda é do antecessor?
 Foto: Andre Luis/Secom-VG

Na política, existe uma diferença importante entre explicar problemas e viver de explicações. Em Várzea Grande, a proposta de criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar os problemas na Avenida Leôncio Lopes de Miranda trouxe à tona uma narrativa que tem marcado a gestão da prefeita Flávia Moretti: diante de dificuldades administrativas, o olhar frequentemente se volta para os erros herdados de governos anteriores.

Mais uma vez, ao comentar uma crise que afeta diretamente a população, a prefeita recorreu ao argumento da herança recebida. O problema é que, passados quase 17 meses desde o início do mandato, cresce entre os moradores o questionamento sobre onde termina a responsabilidade dos antecessores e onde começa, de fato, a responsabilidade de quem está governando.

Durante coletiva de imprensa nesta quarta-feira (17), a prefeita afirmou que não se opõe à criação de uma CPI, desde que ela também alcance contratos firmados por administrações anteriores. Segundo Moretti, os defeitos encontrados na pavimentação não pertencem à sua gestão, mas sim a uma obra contratada em 2020 e executada antes de sua chegada ao comando da Prefeitura.

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A fala pode até ter fundamento técnico. Afinal, contratos públicos carregam responsabilidades que atravessam mandatos. O problema é que, passados quase 17 meses desde a posse, o discurso da herança recebida continua sendo um dos principais argumentos utilizados pela administração municipal sempre que surge uma cobrança mais contundente. E é justamente aí que surge a pergunta que ecoa entre os moradores: onde estão as soluções?

Não é a primeira vez. Dívidas, obras, problemas estruturais e dificuldades financeiras frequentemente aparecem acompanhados da mesma justificativa: a culpa é do governo anterior. Em outras ocasiões, a própria gestão atribuiu ao ex-prefeito Kalil Baracat impactos financeiros e administrativos herdados pela atual administração.

No caso da Avenida Leôncio, a população pouco se interessa por quem assinou o contrato ou por qual gestão iniciou a obra. O que os moradores querem saber é por que uma avenida milionária apresenta falhas e quando o problema será definitivamente resolvido.

Governar, no entanto, exige mais do que identificar culpados. Exige apresentar soluções, fiscalizar contratos, cobrar empresas e entregar resultados. E essa responsabilidade não pode ser terceirizada indefinidamente.

A CPI, caso saia do papel, poderá apontar erros, falhas e responsabilidades de diferentes períodos administrativos. Mas uma pergunta continuará ecoando entre os várzea-grandenses: depois de quase 17 meses no poder, até quando os problemas da cidade continuarão sendo explicados pelo retrovisor?

Paula Valéria Domingo é jornalista com pós-graduação em Jornalismo Investigativo. Atua na cobertura de política, administração pública e temas de interesse social, com foco na análise dos impactos das decisões governamentais sobre a população.