Investigação aponta que ex-deputado continuava influenciando a destinação de recursos públicos mesmo sem exercer mandato
O ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha (Republicanos-MG) teve R$ 6,1 milhões em bens bloqueados por decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF). A medida foi adotada no âmbito de uma investigação da Polícia Federal que apura a suposta interferência do ex-parlamentar na destinação de emendas parlamentares, apesar de ele não ocupar cargo eletivo.
A decisão, assinada em 6 de julho, atende a um pedido formulado durante as investigações sobre um possível esquema de direcionamento irregular de verbas públicas. No mesmo despacho, Dino também determinou o bloqueio de mais de R$ 119 milhões em patrimônio ligado ao presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, que também figura entre os investigados.
Notícias exclusivas no WhatsApp acessando o link: (clique aqui)
Seja nosso seguidor no Instagram (clique aqui)
Seja nosso seguidor no X antigo Twiter (clique aqui)
Segundo a Polícia Federal, Eduardo Cunha continuava exercendo influência política suficiente para definir o destino de recursos do orçamento federal. Os investigadores afirmam que ele teria participado da indicação de pelo menos 29 emendas parlamentares, todas posteriormente suspensas por determinação do Supremo.
As apurações indicam que a execução das demandas passava pela assessora da Presidência da Câmara Mariângela Fialek, conhecida como "Tuca". Conforme a PF, ela atuava na organização das indicações e fazia a interlocução necessária para viabilizar o encaminhamento das emendas atribuídas formalmente a deputados em exercício.
Na avaliação da corporação, o ex-deputado mantinha uma atuação semelhante à de um parlamentar ou dirigente partidário, controlando uma espécie de carteira informal de emendas destinada a atender interesses políticos, principalmente em Minas Gerais, estado onde pretende disputar uma vaga na Câmara dos Deputados nas próximas eleições.
Ao justificar o bloqueio patrimonial, Flávio Dino destacou que o conjunto de provas reunido pela investigação aponta que Cunha exercia papel decisivo na definição do destino de recursos públicos. Para o ministro, conversas extraídas de aplicativos de mensagens e documentos apreendidos reforçam a suspeita de que o ex-deputado comandava o redirecionamento das verbas mesmo sem qualquer função oficial.
Entre os elementos analisados pela Polícia Federal estão mensagens trocadas em setembro de 2025 nas quais Cunha solicita mudanças relacionadas a emendas destinadas ao município de Manhuaçu (MG). Em uma das conversas, ele demonstra preocupação com a repercussão política da destinação dos recursos e pede que a autoria da indicação seja vinculada ao deputado federal Gilberto Abramo (Republicanos-MG). Dias depois, orienta que o município contemplado seja substituído.
Para os investigadores, os diálogos evidenciam que parlamentares eram registrados apenas formalmente como autores das emendas, enquanto as decisões sobre a aplicação dos recursos eram tomadas por Eduardo Cunha.
O relatório da Polícia Federal também sustenta que Mariângela Fialek desempenhava papel estratégico na operacionalização do esquema. Segundo os investigadores, ela não se limitava a cumprir determinações, mas organizava os procedimentos administrativos para que as alterações fossem executadas com aparência de regularidade.
Outro ponto destacado pela investigação é a suspeita de que essa atuação ocorria com conhecimento da Presidência da Câmara dos Deputados, hipótese que segue sendo apurada.
Na visão da Polícia Federal, os indícios reunidos mostram que o ex-presidente da Câmara preservou influência política suficiente para interferir na distribuição de recursos federais mesmo após deixar o mandato, provocando prejuízo aos cofres públicos e comprometendo a transparência na destinação das emendas parlamentares.
A defesa de Eduardo Cunha foi procurada para comentar as acusações, mas não havia se pronunciado até a divulgação das informações. O espaço permanece aberto para manifestação.