Cirurgião oncológico Rafael Sodré, do Hospital de Câncer de MT, alerta para a importância da prevenção e do diagnóstico precoce; unidade é referência em oncologia e atende majoritariamente pacientes do SUS
A prevenção continua sendo uma das principais ferramentas no combate ao câncer. Consultas médicas periódicas, avaliação de fatores de risco e realização de exames indicados para cada faixa etária podem ajudar a identificar alterações antes que a doença avance. O alerta ganha ainda mais importância entre os homens, que, segundo especialistas da área oncológica, frequentemente procuram atendimento apenas quando os sintomas já estão presentes ou quando o quadro apresenta maior gravidade.
O comportamento também é reconhecido pelo próprio Ministério da Saúde, que aponta a baixa procura dos homens pela Atenção Primária e o acesso tardio aos serviços de saúde como desafios no cuidado da população masculina. A pasta mantém uma política específica para ampliar o acesso dos homens à prevenção e ao acompanhamento médico.
Em entrevista ao FTN Brasil, o cirurgião oncológico Rafael Sodré de Aragão, do Hospital de Câncer de Mato Grosso, destacou que muitos pacientes chegam aos serviços especializados já com a doença em estágio avançado. De acordo com o especialista, essa realidade é observada com frequência entre os homens, que, muitas vezes, demoram mais para procurar atendimento médico e acabam descobrindo o câncer somente quando surgem sintomas ou quando o quadro já apresenta maior gravidade.
Alerta - Câncer pode evoluir silenciosamente
Um dos principais problemas é que nem todos os tipos de câncer provocam sintomas nas fases iniciais. Por isso, esperar o aparecimento de dores, sangramentos, perda de peso ou outras alterações para procurar atendimento pode significar perder uma oportunidade importante de diagnóstico.
O Ministério da Saúde explica que o diagnóstico precoce tem como objetivo identificar o câncer em seus estágios iniciais, quando as possibilidades de tratamentos mais simples e efetivos são maiores. Já o rastreamento é direcionado a pessoas que ainda não apresentam sintomas, seguindo critérios específicos para determinados tipos de câncer.
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Isso significa que fazer exames preventivos não é simplesmente realizar uma bateria de exames todos os anos. A necessidade e a periodicidade dos exames dependem da idade, histórico familiar, hábitos de vida, fatores de risco e condições individuais.
Homens estão entre os principais grupos de atenção
Os números mais recentes do Instituto Nacional de Câncer (INCA) mostram a dimensão do problema. Para o triênio 2026-2028, são estimados cerca de 781 mil novos casos de câncer por ano no Brasil, considerando todos os tipos, incluindo o câncer de pele não melanoma. Quando esse tipo é excluído, são aproximadamente 518 mil novos casos anuais.
Entre os homens, o câncer de próstata permanece como o mais incidente, representando 30,5% dos casos estimados. Na sequência, aparecem os tumores de cólon e reto, com 10,3%; pulmão, com 7,3%; estômago, com 5,4%; e cavidade oral, tumor maligno que pode afetar os lábios e estruturas internas da boca, como língua, gengivas, bochechas e céu da boca, com 4,8%.
A estimativa do INCA aponta ainda que, na região Centro-Oeste, o câncer de próstata apresenta uma taxa ajustada de incidência de 58,31 casos por 100 mil homens, seguido pelos cânceres de cólon e reto e de pulmão.
Os números reforçam que a prevenção precisa ir além de um único tipo de câncer.
Próstata exige atenção, mas acompanhamento deve ser individualizado
O câncer de próstata é o tumor mais frequente entre os homens, depois do câncer de pele não melanoma. A doença pode não apresentar sintomas no início, o que dificulta sua percepção pelo paciente.
Entre os sinais que podem aparecer estão dificuldade para urinar, necessidade de urinar mais vezes durante o dia ou à noite e alterações no fluxo urinário. Entretanto, esses sintomas também podem ocorrer em doenças benignas da próstata.
É importante destacar que não há recomendação para que todos os homens assintomáticos realizem, de forma automática e periódica, exames para rastreamento do câncer de próstata. O Ministério da Saúde e o Instituto Nacional de Câncer (INCA) não recomendam o rastreamento populacional indiscriminado, devido à falta de evidências de que os benefícios superem os possíveis riscos.
A orientação é que a decisão seja individualizada e discutida entre o paciente e o profissional de saúde, considerando fatores como idade, histórico familiar e outros fatores de risco. Quando houver indicação médica ou suspeita da doença, podem ser utilizados exames como o PSA (antígeno prostático específico), realizado por meio de exame de sangue, e o toque retal, que são ferramentas importantes na investigação do câncer de próstata.
Intestino também merece atenção
Outro ponto que chama atenção é o câncer colorretal. O tumor de cólon e reto aparece como o segundo câncer mais incidente entre os homens nas estimativas do INCA para 2026-2028.
Alterações persistentes no funcionamento do intestino, sangue nas fezes, perda de peso sem explicação, anemia ou mudanças no hábito intestinal devem ser avaliadas por um profissional.
O Ministério da Saúde inclui o câncer colorretal entre os tipos para os quais existem estratégias de rastreamento, seguindo critérios e protocolos específicos.
Check-up não significa fazer exames sem orientação
Um erro comum é acreditar que prevenção significa realizar todos os exames possíveis todos os anos. Mas não é assim. A indicação e a periodicidade dos exames devem levar em consideração a idade, o histórico familiar, os fatores de risco e as condições de saúde de cada pessoa, sempre com orientação de um profissional.
No caso do câncer, os exames de rastreamento são indicados de acordo com protocolos específicos para determinados tipos de tumor e grupos da população. O Ministério da Saúde ressalta que não existe uma recomendação única de exames que deva ser seguida por todas as pessoas indiscriminadamente.
O acompanhamento deve começar pela consulta médica. A partir da avaliação individual, o profissional pode verificar pressão arterial, peso, hábitos alimentares, histórico familiar, consumo de álcool, tabagismo, atividade física e outros fatores de risco, além de solicitar exames quando houver indicação.
O Ministério da Saúde destaca que ações de prevenção devem considerar fatores como tabagismo, alimentação, atividade física, peso corporal, consumo de bebidas alcoólicas, exposição solar, fatores ocupacionais e outros riscos.
Para os homens, a Atenção Primária também pode funcionar como porta de entrada para esse acompanhamento. A própria política nacional de saúde masculina busca aproximar esse público das unidades de saúde e estimular o cuidado antes do aparecimento de doenças.
O hábito de “só procurar quando sente alguma coisa”
Para o cirurgião oncológico Rafael Sodré, um dos principais obstáculos para o diagnóstico precoce ainda é o hábito de muitos homens adiarem a procura por atendimento médico. Segundo o especialista, é comum que pacientes deixem para buscar ajuda somente quando apresentam sintomas ou quando a doença já está em estágio mais avançado.
O Ministério da Saúde reconhece que, por barreiras socioculturais, os homens tendem a procurar os serviços de saúde mais tardiamente, muitas vezes já na atenção especializada, em vez de utilizar a Atenção Primária para prevenção e promoção da saúde.
Esse comportamento pode transformar uma doença potencialmente identificável em fase inicial em um problema que exige tratamentos mais complexos.
A mensagem dos profissionais é direta: não é preciso esperar o corpo “avisar” que existe um problema para cuidar da saúde.
Quando procurar um médico?
A orientação é procurar atendimento diante de sintomas persistentes ou alterações que não sejam habituais, como:
- sangue nas fezes ou na urina;
- perda de peso sem causa aparente;
- cansaço ou fraqueza persistente;
- alterações prolongadas no funcionamento do intestino;
- dificuldade ou mudanças para urinar;
- aparecimento de nódulos ou caroços;
- feridas que não cicatrizam;
- tosse ou rouquidão persistente;
- dificuldade para engolir;
- sangramentos sem explicação.
Alguns desses sintomas podem estar relacionados a doenças que não são câncer. Por isso, não significam automaticamente que a pessoa tenha um tumor, mas precisam ser investigados quando persistem.
Prevenção começa antes do diagnóstico
A prevenção do câncer não depende apenas dos exames. Parar de fumar, reduzir o consumo de bebidas alcoólicas, manter alimentação equilibrada, praticar atividade física, controlar o peso e evitar exposições de risco são medidas importantes para reduzir a possibilidade de desenvolvimento de diferentes tipos de câncer.
Ao mesmo tempo, o acompanhamento médico permite identificar fatores de risco e definir quais exames realmente são necessários.
O SUS disponibiliza ações de prevenção, diagnóstico e tratamento do câncer. A orientação é que a população procure inicialmente uma Unidade Básica de Saúde (UBS) para avaliação e acompanhamento. Quando houver indicação, o paciente pode ser encaminhado pela rede de regulação para exames, consultas e atendimento especializado.
Em Cuiabá, uma das principais referências no atendimento oncológico pelo SUS é o Hospital de Câncer de Mato Grosso (HCanMT), que é habilitado pelo Ministério da Saúde como Unidade de Assistência de Alta Complexidade em Oncologia (UNACON), com serviços de radioterapia, quimioterapia, hematologia e oncologia pediátrica.
Para a primeira consulta pelo SUS no HCanMT, o paciente deve procurar a UBS mais próxima de sua residência, levando documentos pessoais, cartão do SUS e exames médicos. A Secretaria Municipal de Saúde é responsável pela regulação e pelo agendamento, que definirá se o atendimento será realizado no Hospital de Câncer.
O HCanMT também realiza exames e cirurgias pelo SUS após avaliação médica e mediante autorização da Secretaria de Saúde, seguindo o fluxo de regulação do sistema.
No fim, a mensagem é simples: não espere a doença avançar para começar a cuidar da saúde. Manter o acompanhamento médico, realizar os exames quando houver indicação e procurar atendimento diante de sinais ou sintomas persistentes são atitudes que podem contribuir para a identificação do câncer em fases mais iniciais.
Para os homens, deixar de lado a resistência em procurar atendimento e incorporar o cuidado com a saúde à rotina pode fazer diferença. Quanto mais cedo uma alteração é investigada e, quando necessário, diagnosticada, maiores podem ser as possibilidades de um tratamento mais efetivo e com melhores resultados.