Celular apreendido pelo FBI revelou mensagens criptografadas e imagens de grandes quantias em dinheiro, as mensagens ainda revelam o movimento de R$ 29,3 bilhões entre 2021 e 2024
Uma empresa sem funcionários registrados teria movimentado cerca de R$ 29,3 bilhões entre janeiro de 2021 e agosto de 2024 e passou a ser alvo da Polícia Federal (PF) por suspeita de integrar um esquema de lavagem de dinheiro ligado ao tráfico internacional de drogas.
As informações constam na investigação que embasou a Operação Exchange, deflagrada na última semana. Segundo a PF, a empresa Hi Quality Importação, Comércio e Distribuição teria sido utilizada para ocultar recursos provenientes, principalmente, da comercialização de haxixe.
Durante o período analisado, a companhia foi alvo de 645 comunicações de operações consideradas atípicas pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), que identificou movimentações financeiras incompatíveis com a estrutura da empresa.
A empresa está registrada em nome de Ygor Fokin Saviolli, preso pelo FBI em janeiro deste ano no aeroporto de Fort Lauderdale, na Flórida. As investigações apontam que ele atuaria em conjunto com Victor Henrique de Oliveira Shimada, recentemente sancionado pelo governo dos Estados Unidos por suposta ligação com o Primeiro Comando da Capital (PCC).
Conforme a Polícia Federal, as contas bancárias da empresa eram utilizadas para receber e movimentar recursos relacionados a negociações de drogas. Embora a Hi Quality estivesse formalmente registrada em nome de Saviolli, os investigadores afirmam que as operações financeiras também eram realizadas por meio de terceiros.
As apurações tiveram um avanço significativo após a apreensão do telefone celular de Saviolli pelas autoridades norte-americanas. No aparelho foram encontrados vídeos, fotografias de grandes quantias em dinheiro e mensagens criptografadas que, segundo os investigadores, indicavam a existência de operações ligadas ao narcotráfico.
A partir dessas informações, o Serviço de Imigração e Controle de Aduanas dos Estados Unidos (ICE) comunicou a Polícia Federal brasileira sobre uma investigação envolvendo cidadãos brasileiros suspeitos de utilizar dinheiro em espécie e empresas de fachada para lavar recursos ilícitos.
O caso passou a ser conduzido pelo Grupo Especial de Investigações Sensíveis (Gise), que concluiu que Saviolli e Shimada estariam à frente de uma organização criminosa que utilizava as empresas Victory Trading e Hi Quality Importação, Comércio e Distribuição, ambas administradas pelo mesmo contador.
Segundo a PF, apesar de não possuir empregados registrados na Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), a Hi Quality movimentou mais de R$ 29,3 bilhões, valor considerado incompatível com sua estrutura operacional.
As investigações também identificaram diversas transações financeiras nas quais Ygor Fokin Saviolli aparecia tanto como remetente quanto como beneficiário dos recursos.
No dia 1º de julho, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos anunciou sanções contra Victor Henrique de Oliveira Shimada, a secretária Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira e a empresa Victory Trading.
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Para a Polícia Federal, a divulgação antecipada das medidas acabou prejudicando a investigação brasileira. Os mandados judiciais já haviam sido autorizados pela Justiça Federal, mas ainda não tinham sido cumpridos porque os investigadores buscavam localizar Shimada antes da deflagração da operação.
De acordo com integrantes da PF, a ampla divulgação do caso dificultou a localização do principal investigado, que não foi encontrado durante o cumprimento dos mandados.
O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, afirmou que a operação precisou ser antecipada após a publicação das sanções americanas. Segundo ele, caso isso não tivesse ocorrido, haveria maior possibilidade de localizar Shimada antes da ação policial.
Embora o governo norte-americano tenha aplicado sanções citando suposta ligação do grupo com o PCC, a investigação conduzida pela Polícia Federal no Brasil faz apenas uma referência à facção criminosa.
O único trecho mencionado pelos investigadores relata uma conversa entre Shimada e outro investigado, Carlos Henrique Costa Almeida. Segundo o relatório, Almeida teria consultado Shimada sobre a possibilidade de conseguir euros para atender uma solicitação atribuída a um suposto ex-integrante da organização criminosa, que pretendia receber cerca de R$ 1 milhão no Brasil. Shimada teria respondido que tentaria viabilizar a operação.