Município caiu cinco posições e agora ocupa o 17º lugar entre os 20 piores colocados; apenas 2,64% do esgoto é tratado e moradores convivem com abastecimento irregular
O retrato do saneamento básico em Várzea Grande expõe não apenas um problema histórico, mas também a dificuldade da atual gestão em apresentar uma solução definitiva para uma crise que continua deixando moradores sem água nas torneiras.
No Ranking do Saneamento 2026, elaborado pelo Instituto Trata Brasil em parceria com a GO Associados, o município aparece na 97ª posição entre os 100 mais populosos do país e ocupa o 17º lugar entre os 20 piores colocados. Diante do agravamento da situação, Várzea Grande precisou recorrer ao apoio do Governo de Mato Grosso, que passou a atuar em conjunto com o município por meio de medidas emergenciais para tentar recuperar o abastecimento.
O resultado representa uma piora em relação à edição anterior. Várzea Grande estava na 92ª posição em 2025 e caiu cinco colocações, chegando ao 97º lugar em 2026. Os dados utilizados no levantamento são referentes a 2024, com base no Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (SINISA).
O retrato apresentado pelo levantamento ajuda a explicar por que a população continua enfrentando dificuldades para receber um serviço básico que deveria ser universalizado.
Água chega, mas não significa abastecimento regular
Segundo o Ranking, 96,62% da população de Várzea Grande aparece como atendida pelo sistema de abastecimento de água. O número, à primeira vista, pode sugerir uma situação confortável. Na prática, porém, o percentual de atendimento não significa que a água esteja disponível de forma contínua nas residências.
Dados do Instituto Água e Saneamento, também baseados no SINISA 2024 e no Censo 2022, apontam que 83,7% da população recebe água por rede geral de distribuição, enquanto 6.659 moradores não possuem água encanada em seus domicílios.
E a realidade atual reforça o tamanho do problema.
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Em agosto deste ano, moradores relataram períodos de cinco, dez e até 12 dias sem água em determinados bairros durante audiência pública que discutiu a atualização do Plano Municipal de Saneamento Básico.
Um morador da Vila Arthur, que vive em Várzea Grande há quase 50 anos, afirmou que o problema se agravou nos últimos anos.
Na semana passada, o problema também foi levado à Câmara Municipal. Segundo relato apresentado pelo vereador Galibert, bairros como Mapim, Jardim dos Estados, Nair Sacre, Celestino Henrique e Parque Atlântico chegaram a enfrentar intervalos de cinco dias ou mais sem abastecimento.
"Se o morador paga a conta de água, ele tem que ter água em casa para ser usada", pontuou Galibert.
Problema histórico atravessa gerações
O próprio Departamento de Água e Esgoto de Várzea Grande (DAE-VG) reconheceu, em agosto, que o município enfrenta uma “crise histórica” no abastecimento de água, com problemas recorrentes há mais de 40 anos.
Como resposta emergencial, uma força-tarefa envolvendo Governo de Mato Grosso, Prefeitura, Ministério Público, Tribunal de Contas e DAE iniciou ações para tentar ampliar a oferta. Três poços foram reativados, acrescentando, segundo o DAE, mais de 1,5 milhão de litros de água por dia ao sistema. O Estado também anunciou cerca de R$ 60 milhões em investimentos para reforçar a estrutura de abastecimento.
Mesmo com as medidas emergenciais, a população continua convivendo com interrupções. Em agosto, o próprio DAE informou que serviços de manutenção em estações de tratamento poderiam provocar novas reduções temporárias no abastecimento.
Esgoto é o maior alerta do ranking
Se o abastecimento de água já representa um problema, os números relacionados ao esgoto são ainda mais preocupantes.
O Ranking 2026 aponta que somente 28,54% da população de Várzea Grande possui atendimento total de esgoto. O percentual está muito distante da meta de universalização prevista no Novo Marco Legal do Saneamento.
O dado mais grave, porém, aparece no tratamento: apenas 2,64% do esgoto produzido no município é tratado. Com esse índice, Várzea Grande está entre os três municípios dos 20 piores do país que tratam menos de 10% do esgoto gerado.
O Instituto Água e Saneamento confirma o tamanho do déficit. Segundo os dados do SINISA 2024, apenas 28,5% da população tem acesso aos serviços públicos de esgotamento sanitário. O município coleta somente 22,2% do esgoto gerado e trata apenas 2,6% do volume total produzido.
Perdas de água também preocupam
Outro indicador coloca Várzea Grande em situação delicada: as perdas na distribuição.
O município registra 59,03% de perdas na distribuição, segundo os dados utilizados no ranking. Isso significa que uma parcela expressiva da água produzida não chega efetivamente ao consumidor.
O índice está muito acima da meta de 25% estabelecida pela Portaria 490/2021. Entre os 20 piores municípios analisados, nenhum conseguiu atingir essa referência e a média do grupo foi de 44,78%.
No indicador de perdas por ligação, Várzea Grande também apresenta um número elevado: 928,32 litros por ligação por dia, enquanto a referência citada no estudo é de 216 litros.
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Investimento ainda distante do necessário
Entre 2020 e 2024, Várzea Grande registrou R$ 74,33 milhões em investimentos em saneamento, o equivalente a uma média de R$ 47,25 por habitante no período analisado.
O número fica muito abaixo do patamar estimado pelo estudo como necessário para a universalização dos serviços: R$ 225 por habitante ao ano.
Entre os 20 piores municípios do país, o investimento médio foi de R$ 77,58 por habitante ao ano, também considerado insuficiente. O grupo investiu aproximadamente R$ 5,2 bilhões entre 2020 e 2024, cerca de um quarto do montante aplicado pelos 20 melhores municípios.
Várzea Grande não está sozinha

A situação do município faz parte de um problema nacional. Os 20 piores colocados no Ranking de 2026 estão espalhados por diferentes regiões do país.
A lista reúne quatro municípios do Rio de Janeiro, quatro do Pará e três de Pernambuco. Também aparecem municípios das regiões Norte, Nordeste, Centro-Oeste e Sul. Entre os 20 piores estão sete capitais: Maceió, Manaus, São Luís, Belém, Rio Branco, Macapá e Porto Velho.
O último colocado é Santarém (PA), na 100ª posição. Logo acima aparecem Porto Velho (RO), Rio Branco (AC) e Várzea Grande (MT), respectivamente nas posições 99, 98 e 97.
Ranking mostra distância da universalização
O estudo considera nove indicadores distribuídos em três dimensões: nível de atendimento, melhoria do atendimento e eficiência. São avaliados abastecimento de água, coleta e tratamento de esgoto, investimentos e perdas na distribuição.
A edição de 2026 utiliza os dados mais recentes disponíveis no SINISA, referentes a 2024. O sistema substituiu gradualmente o antigo SNIS após o Novo Marco Legal do Saneamento, instituído pela Lei nº 14.026/2020. A primeira coleta do SINISA ocorreu em 2024 e a primeira divulgação foi realizada em 2025.
No caso de Várzea Grande, os números deixam um recado difícil de ignorar: o município possui cobertura formal de água elevada, mas convive com interrupções frequentes, perdas superiores à metade da água distribuída e uma estrutura de esgotamento sanitário que ainda está muito distante da universalização.
Para quem abre a torneira e não encontra água, o problema não é apenas um número em um ranking. É uma realidade que se repete há décadas e que continua fazendo parte da rotina de famílias que esperam por um serviço básico funcionando de forma regular.