Estado registrou cinco feminicídios somente em agosto e mantém a segunda maior taxa do país; sinais como ameaças, humilhações, controle, ciúmes excessivos e agressões não devem ser ignorados
A violência não deve ser normalizada. A ameaça não é brincadeira. O controle não é amor. A humilhação não é cuidado. E a agressão não é culpa da vítima. Em uma matéria especial, o FTN Brasil alerta para os diferentes tipos de violência contra a mulher e mostra como comportamentos que muitas vezes são tratados como “ciúme”, “briga de casal” ou “problema de relacionamento” podem ser sinais de um ciclo de violência que, em casos extremos, pode terminar em feminicídio. Em Mato Grosso, os números reforçam a urgência do alerta: o Estado já contabiliza dezenas de mulheres assassinadas em crimes classificados como feminicídio em 2026.
A violência contra a mulher não começa necessariamente com um soco, uma facada ou um assassinato. Muitas vezes, ela surge de forma silenciosa, dentro de casa e de relacionamentos que, por fora, parecem normais. Começa com uma palavra ofensiva, uma ameaça, o controle do celular, o isolamento da família, o ciúme excessivo ou a tentativa de controlar a roupa, o dinheiro e até os passos da vítima.
Em Mato Grosso, os números mostram que esse ciclo pode terminar da forma mais cruel. O Estado chegou a 32 feminicídios em 2026, conforme dados do Observatório Caliandra, do Ministério Público de Mato Grosso (MPMT), elaborados a partir dos registros da Polícia Civil. Somente em agosto, cinco mulheres foram assassinadas, fazendo com que o mês interrompesse a sequência de redução registrada no acumulado do ano.
Notícias exclusivas no WhatsApp acessando o link: (clique aqui)
Seja nosso seguidor no Instagram (clique aqui)
Seja nosso seguidor no X antigo Twiter (clique aqui)
Entre janeiro e julho, Mato Grosso havia registrado 26 feminicídios, contra 32 no mesmo período de 2025 — uma redução de 18,8%. Apesar da queda, o Estado apresentava, naquele período, a segunda maior taxa de feminicídios do país, com 1,13 morte para cada 100 mil mulheres, atrás apenas do Amapá. A média nacional era de 0,68.
O cenário também revela que o feminicídio não é um crime isolado. Dados do Observatório Caliandra divulgados em agosto apontavam 28.369 mulheres vítimas de violência doméstica e familiar em Mato Grosso em 2026, uma média de aproximadamente 135 registros por dia. Entre as ocorrências estavam 9.640 casos de ameaça, 4.993 de lesão corporal, 3.543 de injúria, 2.265 de violência psicológica e 1.815 de difamação.
O sinal de socorro que pode salvar uma vida

Em situações de violência, nem sempre a vítima consegue gritar, ligar para a polícia ou pedir ajuda verbalmente. Por isso, existe um gesto internacional de pedido silencioso de socorro que pode ser utilizado por mulheres que estejam em perigo.
O sinal é feito levantando a mão com a palma voltada para outra pessoa, dobrando o polegar para dentro da palma e, em seguida, fechando os demais dedos sobre o polegar. O gesto representa um pedido silencioso de ajuda.
A iniciativa é especialmente importante porque permite que uma mulher comunique que está em uma situação de risco sem chamar a atenção do agressor. O gesto pode ser utilizado durante uma chamada de vídeo, em um ambiente público, dentro de um veículo ou em qualquer situação em que a vítima consiga ser vista por alguém que conheça o significado do sinal.
Ao identificar o gesto, a orientação é não confrontar o possível agressor diretamente. Se for possível e seguro, a pessoa deve buscar ajuda, acionar os serviços de emergência ou entrar em contato com alguém de confiança, seguindo a situação apresentada pela vítima.
É importante conhecer o sinal, mas também entender que ele não substitui uma denúncia. Se houver possibilidade segura de pedir ajuda, procure imediatamente a rede de proteção.
Você sabia que a violência pode começar muito antes da agressão física?
É importante que a mulher — e também familiares, amigos, vizinhos e colegas — saiba reconhecer os sinais de uma relação abusiva.
Entre os comportamentos que podem indicar uma escalada de violência estão:
- Humilhações, xingamentos e insultos constantes;
- Ameaças contra a mulher, filhos, familiares ou animais de estimação;
- Ciúme excessivo e acusações frequentes de traição;
- Controle de roupas, amizades, trabalho, horários e locais frequentados;
- Exigência de senhas e monitoramento de celular, redes sociais e localização;
- Tentativa de afastar a mulher de familiares e amigos;
- Controle financeiro, impedindo a mulher de trabalhar ou de ter acesso ao próprio dinheiro;
- Destruição de objetos, móveis ou pertences como forma de intimidação;
- Perseguição e aparecimento insistente em locais onde a mulher está;
- Coação ou violência sexual;
- Empurrões, tapas, socos, estrangulamento ou qualquer outra agressão física;
- Ameaças de morte ou frases como “se você não for minha, não será de ninguém”.
Nenhum desses comportamentos deve ser tratado como “prova de amor”, “briga de casal” ou algo que a mulher precisa suportar para preservar um relacionamento.
Não espere a violência chegar ao extremo
Um dos dados mais preocupantes do Observatório Caliandra é que, entre 30 vítimas de feminicídio analisadas, 23 não haviam registrado boletim de ocorrência contra o autor e, em 28 casos, não havia medida protetiva em vigor. O próprio levantamento ressalta que isso não significa responsabilizar a vítima: medo, dependência financeira, ameaças, vínculos familiares, isolamento e o ciclo da violência podem dificultar a busca por ajuda.
Por isso, a mensagem precisa ser clara: a mulher não precisa esperar ser agredida fisicamente para procurar ajuda.
Se existe ameaça, perseguição, controle, humilhação, violência psicológica ou qualquer situação que provoque medo, procure orientação. Registrar a violência pode ser um passo importante para que a rede de proteção conheça a situação e possa agir.
E se você conhece uma mulher que esteja passando por isso, não minimize o sofrimento dela. Escute, acolha e ajude-a a encontrar um caminho seguro para buscar proteção.
Romper o silêncio pode salvar vidas
A mulher vítima de violência pode procurar uma Delegacia Especializada de Defesa da Mulher (DEDM), uma delegacia da Polícia Civil, a Polícia Militar, a Defensoria Pública, o Ministério Público ou outros serviços da rede de proteção.
Em situação de emergência ou risco imediato, a orientação é ligar para o 190, da Polícia Militar. Para denúncias e informações sobre violência contra a mulher, também existe o Ligue 180, serviço gratuito que funciona 24 horas por dia. O canal oferece orientação, recebe denúncias e encaminha os casos aos órgãos competentes.
O Ligue 180 também atende pelo WhatsApp (61) 9610-0180.
Canais de ajuda em Mato Grosso
O Governo de Mato Grosso mantém o Portal Mato Grosso em Defesa das Mulheres, com informações, serviços e contatos da rede de proteção.
Principais canais:
190 – Polícia Militar: emergências e pedidos de socorro.
197 – Polícia Civil: denúncias e informações.
180 – Central da Mulher: atendimento 24 horas, todos os dias.
181 – Central Estadual: denúncias e informações, 24 horas.
192 – SAMU: urgências médicas.
Delegacia Especializada de Defesa da Mulher de Cuiabá
Avenida Carmindo de Campos, nº 2.109, esquina com Rua Bahia, Jardim Paulista
Recepção: (65) 3613-8901
Plantão: (65) 98173-0709
Delegacia de Defesa da Mulher e Vulneráveis de Várzea Grande
Avenida Senador Filinto Müller, nº 2.225, Centro Norte
(65) 3685-1236
(65) 98173-0670
Delegacia Especializada de Defesa da Mulher de Sinop
(66) 3531-0120 / 3531-3544
(66) 98156-0051
Delegacia Especializada de Defesa da Mulher de Rondonópolis
(66) 3423-1754
(66) 98156-0140 / 98156-0143
Para consultar os contatos das Delegacias Especializadas e Núcleos de Atendimento à Mulher em outros municípios de Mato Grosso, o Estado mantém uma relação atualizada no portal oficial.
Se você está vivendo uma situação de violência, não se cale e não enfrente o agressor sozinha se isso colocar sua vida em risco. Procure ajuda e busque um lugar seguro.
Denunciar pode ser o primeiro passo para interromper o ciclo da violência — e, em muitos casos, pode significar a diferença entre uma história que termina em pedido de ajuda e uma vida que termina em feminicídio.