ALERGIA SEVERA

Justiça bloqueia R$ 10,8 mil para garantir fórmula alimentar de alto custo para criança doente

· 3 min de leitura
Justiça bloqueia R$ 10,8 mil para garantir fórmula alimentar de alto custo para criança doente
Bloqueio ocorreu após pedido da Defensoria Pública do Estado de Mato Grosso

Uma criança de dois anos, diagnosticada com alergia severa à proteína do leite de vaca (APLV), teve o acesso ao seu único alimento seguro garantido após atuação da Defensoria Pública do Estado de Mato Grosso (DPEMT).

Para o pequeno R. C., que nasceu em Primavera do Leste (a 239 km de Cuiabá), a alimentação tornou-se uma batalha logo nos primeiros dias de vida. Uma crise severa de icterícia levou o bebê à Unidade de Terapia Intensiva (UTI) por três dias, interrompendo precocemente a amamentação.

“Precisei ir tirar o leite, mas não saía mais. Secou”, revelou a mãe do menino, a analista administrativa M. V. C., de 25 anos.

Diante da necessidade de recorrer à fórmula infantil, a família esbarrou em um problema ainda maior: ele foi diagnosticado com alergia severa, acompanhada de gastroenterite e colite alérgica.

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Na prática, o contato com qualquer leite convencional provoca reações violentas no organismo da criança, como diarreia intensa, eliminação de sangue e muco, além de assaduras graves.

“Ele sente muita dor de barriga, tem diarreia, faz fezes estranhas. A única fórmula que deu certo para ele foi essa”, explicou a mãe.

A indicação médica foi taxativa: uso exclusivo de fórmula extensamente hidrolisada, lata de 800 gramas, sendo sete latas por mês. O desafio, no entanto, passou a ser financeiro – cada lata do produto custa em média R$ 349.

“Dava quase R$ 3 mil por mês. Conseguimos uma parte com a assistência social, mas chegou um momento em que eles não conseguiam mais arcar com os custos”, contou M.

Sem alternativas, a família encontrou amparo no Núcleo de Primavera do Leste da DPEMT. “Ano passado, procurei a Defensoria pela primeira vez. Foi muito bom. Hoje, a gente recebe as latas certinho”, destacou a mãe.

O Município havia fornecido o alimento anteriormente, mas suspendeu a entrega de forma abrupta. A justificativa do poder público era de que o menino havia ultrapassado a faixa etária do programa municipal, ignorando a previsão legal que garante o atendimento excepcional até os dois anos de idade.

Antes de acionar o Judiciário, o defensor público Nelson Gonçalves de Souza Junior tentou esgotar todas as vias administrativas, notificando a Secretaria de Estado de Saúde e realizando diligências junto à rede municipal. Sem sucesso na conciliação, a judicialização tornou-se a única saída para garantir a alimentação da criança.

No dia 9 de março, a 1ª Vara Cível de Primavera do Leste concedeu a tutela de urgência, dando 15 dias para que o Estado e o Município voltassem a fornecer o alimento.

Na decisão, o magistrado foi categórico: entraves burocráticos ou divisões administrativas não podem se sobrepor ao direito à saúde. Ainda assim, não houve manifestação do poder público.

Bloqueio judicial

Para evitar a descontinuidade do tratamento, o defensor protocolou, no dia 16 de março, um pedido de bloqueio de contas já acompanhado de orçamentos de farmácias privadas.

Três dias depois, a Justiça determinou o bloqueio de R$ 10.835,58 – montante exato, baseado na opção mais econômica, para cobrir seis meses de tratamento de R.

O alvará foi expedido para a compra direta, condicionada à posterior prestação de contas com notas fiscais.

Na última terça-feira (25), o juiz encerrou a fase de coleta de provas do processo.

Segundo o defensor, o caso consolida o papel da Instituição na materialização de direitos que, de outra forma, ficariam restritos ao papel.

Para a mãe, a vitória judicial garante não apenas a nutrição do filho – que está se desenvolvendo bem e hoje já está “falando de tudo” –, mas a tranquilidade necessária para gerenciar uma rotina delicada de envios de lanches especiais para a creche e cuidados com a imunidade do filho.

“Ele completou dois anos em julho. A gente tentou tirar a fórmula e dar outro leite, mas desandou tudo. A pediatra mandou esperar e só tentar de novo daqui uns dez meses”, relatou.

A Defensoria Pública segue acompanhando o caso para garantir a alimentação adequada para o desenvolvimento saudável da criança.