Parlamentar questiona se a mudança poderia abrir espaço para intervenção estrangeira e alerta que a simples classificação não garante resultados no combate ao crime
O deputado estadual Carlos Avallone manifestou preocupação com a proposta de classificar organizações criminosas como terroristas em Mato Grosso e alertou para o risco de a medida abrir espaço para interferências estrangeiras no Brasil. Durante entrevista à imprensa, o parlamentar afirmou ser, inicialmente, contrário à iniciativa defendida pelo governador Otaviano Pivetta e questionou quais benefícios concretos a mudança de classificação traria ao enfrentamento da criminalidade.
Avallone argumentou que o debate precisa considerar as consequências políticas e jurídicas da medida, especialmente diante de declarações e ameaças que, segundo ele, partiram do governo dos Estados Unidos sobre a possibilidade de atuar contra organizações classificadas como terroristas.
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"A princípio, eu sou contra. Quero entender como é esse projeto. Eu acho muito perigoso a gente classificar em terrorismo, em terrorista, quando tem ameaças dos Estados Unidos em fazer esse combate", afirmou.
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O deputado levantou a hipótese de uma eventual atuação de forças norte-americanas em território brasileiro e questionou se a classificação poderia ser utilizada como justificativa para ampliar a interferência internacional em assuntos de segurança pública.
"Ele vai descer com as tropas americanas nos morros do Rio de Janeiro, morro de São Paulo, aqui em Mato Grosso, para ajudar a acabar com o terrorismo? É muito perigoso isso. É uma interferência muito grande", declarou.
Para Avallone, a discussão deveria priorizar instrumentos efetivos de combate às facções, como investimentos, ampliação de recursos e medidas operacionais, em vez de se concentrar apenas na mudança da denominação atribuída aos grupos criminosos.
"Você só colocar o nome de terrorista, muda o quê? Então tem que tomar muito cuidado com uma decisão dessa. Não conheço a lei, mas, a princípio, não sou favorável", disse.
Questionado sobre a possibilidade de a proposta ter caráter apenas simbólico, sem alterar diretamente a atuação das forças de segurança, o parlamentar afirmou que essa condição tornaria a iniciativa ainda mais preocupante.
"Eu acho que isso é mais grave ainda. Porque, se tivesse alguma coisa que ele falasse, vai entrar com tantos recursos, nós vamos aumentar, é uma coisa a se pensar. Agora, só dizer: a partir de agora é terrorista, qual é a vantagem disso?", questionou.
Na avaliação, uma medida sem efeitos práticos claros poderia produzir consequências políticas indesejadas, especialmente em relação à soberania nacional.
"A não ser propiciar uma interferência maior estrangeira no Brasil. Então nós temos que tomar muito cuidado com isso", acrescentou.
Ao comentar o cenário político após a eleição presidencial, Avallone associou a discussão sobre a classificação das facções à defesa da soberania brasileira, tema que, segundo ele, teve influência na mobilização de jovens durante a campanha.
O deputado afirmou que os governantes precisam compreender as mensagens transmitidas pelo eleitorado e evitar a insistência em propostas que, na avaliação dele, não tiveram respaldo nas urnas.
"Nós temos que entender o recado das urnas. Se os governos não entenderem o recado das urnas, têm a tendência de errar novamente", declarou.
Avallone também criticou a família Bolsonaro, afirmando que, em sua interpretação, parte do eleitorado jovem rejeitou o risco de autoritarismo associado ao grupo político.
"Os jovens vieram para a rua por causa da soberania", disse.
Na sequência, o parlamentar afirmou que considera a família Bolsonaro, e não a direita como um todo, associada a uma tendência autoritária. Ele também fez acusações sobre tentativas de ruptura institucional, apresentadas durante a entrevista como sua avaliação política.
"Eles entenderam que a família Bolsonaro, não a direita, tem uma tendência de instalar ditaduras, ou tentar fazer um golpe de Estado novamente", afirmou.
Por fim, Avallone questionou a conveniência de Mato Grosso avançar com uma proposta que, segundo ele, fazia parte das bandeiras defendidas pelo candidato derrotado à Presidência.
"Aprovar um negócio desse que era uma pauta do candidato que perdeu, não sei se é interessante", concluiu.
O deputado foi ainda questionado sobre relatos de boicotes comerciais motivados por divergências políticas em Mato Grosso. No trecho disponibilizado da entrevista, porém, não consta a resposta dele sobre o assunto.