Professor havia sustentado que denúncia de assédio seria uma retaliação, tese que não foi confirmada pela apuração administrativa
A Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) concluiu que não houve qualquer irregularidade na matrícula da estudante de Direito que denunciou o professor Saulo Tarso Rodrigues por supostos crimes de assédio sexual e perseguição. A informação foi divulgada pela instituição na terça-feira (28), após a análise da denúncia apresentada pelo docente contra a universitária.
O procedimento foi instaurado depois que Saulo Tarso levantou suspeitas de que a aluna teria ingressado de forma irregular no curso de Direito ao manter, simultaneamente, matrícula em outra graduação da universidade, situação vedada pela legislação federal. A apuração interna, no entanto, descartou a acusação.
Segundo a UFMT, os registros acadêmicos demonstram que a estudante formalizou o cancelamento da matrícula no curso de Psicologia em 2 de fevereiro deste ano, antes de concluir sua matrícula em Direito, efetivada no dia seguinte. Dessa forma, não houve sobreposição de vínculos acadêmicos.
Além da situação das matrículas, a universidade informou que revisou toda a documentação apresentada pela estudante durante o processo seletivo, incluindo os critérios utilizados para ingresso pelo Sistema de Seleção Unificada (Sisu), a modalidade de cotas e eventuais benefícios estudantis.
Ao final da análise, a instituição concluiu que todos os requisitos previstos no edital foram cumpridos. Também não foram encontrados indícios de fraude documental, informações falsas ou qualquer irregularidade relacionada aos programas de assistência estudantil que justificasse a abertura de procedimento disciplinar.
Na segunda-feira (27), antes da manifestação oficial da universidade, Saulo Tarso afirmou que a denúncia de assédio sexual apresentada pela estudante seria uma reação ao fato de sua esposa que também é acadêmica de Direito na UFMT ter questionado a situação da matrícula da jovem perante a Ouvidoria da instituição.
Segundo o professor, a representação apresentada pela aluna teria ocorrido somente após a abertura da apuração administrativa sobre seu ingresso na universidade.
"Nós encaminhamos o caso ao órgão competente para que analisasse se havia ou não indício de fraude. E foi tudo em decorrência dessa denúncia aqui que ela formulou as denúncias de assédio. Tudo decorreu por causa disso, como uma forma de retaliação", declarou.
O docente também criticou o que chamou de "Justiça de gênero" e sustentou que as acusações teriam como objetivo retaliá-lo em razão da denúncia administrativa.
Embora tenha afastado qualquer irregularidade envolvendo a matrícula da estudante, a manifestação da UFMT não altera o andamento das investigações conduzidas pela Delegacia Especializada de Defesa da Mulher de Cuiabá.
Saulo Tarso segue afastado das atividades acadêmicas por determinação judicial e é investigado pelos crimes de importunação sexual e perseguição, após denúncia apresentada pela estudante.
Conforme o inquérito policial, os episódios teriam começado no início do semestre letivo de 2026. A aluna relata que, durante uma aula, o professor sentou-se ao seu lado e tocou sua perna sem consentimento. Logo depois, ela afirma ter recebido uma mensagem do docente comentando a roupa que utilizava naquele dia.
A investigação também reúne relatos de outro episódio ocorrido durante uma palestra, quando o professor teria colocado a mão na região lombar da estudante no momento em que ambos posavam para uma fotografia. Colegas que presenciaram a cena, segundo os autos, chamaram a atenção para a conduta do docente.
Ainda conforme a denúncia, mesmo após ser informado de que a estudante não desejava qualquer aproximação, o investigado teria continuado buscando informações sobre sua rotina junto a colegas e representantes da turma.
Em razão das acusações, a Justiça determinou medidas cautelares que proíbem Saulo Tarso de se aproximar da estudante, de seus familiares e das testemunhas do caso em um raio inferior a 500 metros. O professor também está impedido de manter contato com a universitária por qualquer meio de comunicação e de frequentar os locais onde ela reside, estuda ou trabalha.