Quando um cidadão aciona uma ambulância em situação de emergência, espera receber atendimento com elevada competência técnica e capacidade de resposta adequada. Em Mato Grosso, esse papel é desempenhado pelo SAMU, que ao longo dos anos estruturou um modelo baseado em qualificação profissional e decisão clínica especializada. Nesse contexto, é preciso cautela com soluções que, sob o argumento de simplificação administrativa ou redução de custos, possam comprometer a qualidade do serviço prestado. A diferença entre o que parece eficiente e o que efetivamente é tecnicamente adequado precisa ser considerada com responsabilidade.
Não discuto a integração do SAMU ao Corpo de Bombeiros Militar sob a ótica corporativa ou em oposição a qualquer categoria de servidor público. Desde o início, é importante afastar qualquer tentativa de polarização. O Corpo de Bombeiros Militar e o SAMU são instituições distintas, porém complementares, ambas voltadas ao atendimento pré-hospitalar. Não há espaço para uma lógica de disputa entre estruturas que, na prática, atuam com o mesmo objetivo: salvar vidas. Qualquer narrativa que coloque uma instituição em oposição à outra enfraquece o sistema como um todo e desvia o foco do que realmente importa, que é o atendimento à sociedade.
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O avanço significativo observado no atendimento pré-hospitalar em Mato Grosso não é fruto de um modelo isolado, mas de um trabalho técnico, sério, responsável e comprometido com a excelência. Esse padrão de qualidade pode ser identificado tanto no Corpo de Bombeiros Militar quanto no SAMU. São instituições que, cada uma dentro de sua expertise, construíram ao longo dos anos um patrimônio operacional e técnico que precisa ser preservado e valorizado.
A integração recente apresenta resultados operacionais relevantes, especialmente na redução do tempo-resposta e no aumento do número de atendimentos. Esses dados são importantes e devem ser reconhecidos. Ao mesmo tempo, a literatura em governança pública e gestão em saúde aponta que processos de integração entre estruturas com naturezas distintas exigem atenção cuidadosa para que não haja perda de autonomia técnica, especialmente no campo das decisões clínicas.
Recordo um ponto que ajuda a colocar esse debate em perspectiva. Em 2005, quando o SAMU iniciou suas operações em Cuiabá, sua base funcionava dentro da estrutura do Corpo de Bombeiros Militar, no antigo CURA – Companhia de Urgência e Resgate de Acidentados, localizada no início da Avenida Mato Grosso. Naquele momento, o Corpo de Bombeiros Militar não apenas acolheu o serviço, como também contribuiu diretamente com a formação inicial em técnicas de resgate. Ou seja, a integração entre as instituições não é uma novidade recente. Ela já existia na prática, desde a origem do serviço no estado, e demonstrava, já naquela época, que a cooperação estruturada é viável e produz bons resultados.
Esse histórico demonstra algo que o debate atual, por vezes, deixa de considerar: o atendimento pré-hospitalar em Mato Grosso sempre foi sustentado por uma lógica de cooperação. Não houve substituição absoluta de uma instituição pela outra, mas sim adaptação às realidades locais. Isso revela o valor, o comprometimento e a maturidade institucional tanto do Corpo de Bombeiros Militar quanto do SAMU.
Do ponto de vista legal, é importante destacar que não há qualquer tipo de sobreposição indevida ou usurpação de função, ambos possuem competência legal e exercem suas funções dentro dos limites estabelecidos, com responsabilidade e compromisso com o interesse público.
Quando bem estruturada, a integração pode gerar ganhos significativos. A atuação conjunta entre Corpo de Bombeiros Militar e SAMU já demonstra, na prática, que é possível construir uma resposta mais eficiente e coordenada. Trata-se, portanto, de fortalecer essa integração sob bases sólidas de governança, e não de promover substituição de uma estrutura à outra.
Nesse sentido, o Corpo de Bombeiros Militar e o SAMU, longe de qualquer disputa, compõem uma engrenagem essencial do sistema de resposta às urgências. A soma das capacidades operacionais e da expertise em saúde tende a produzir um serviço mais ágil, mais qualificado e mais resolutivo. Este é o momento de fortalecer essa integração, não de fragilizá-la. A sociedade mato-grossense não precisa de disputa institucional, precisa de eficiência, coordenação e compromisso com a vida.
Cabe ao Governo do Estado de Mato Grosso conduzir esse processo com responsabilidade. As decisões de estruturação do sistema são de sua competência legítima, conferida pelo processo democrático. O que se espera é que sejam orientadas por critérios técnicos, com foco no interesse público e na melhoria contínua do atendimento.
A eventual descontinuidade de profissionais especializados do SAMU representa medida extremamente preocupante sob a ótica da governança pública e da gestão em saúde. A substituição de quadros técnicos qualificados por soluções simplificadas não se confunde com integração e pode resultar em perda de qualidade assistencial. Integração pressupõe coordenação entre competências distintas, não a eliminação de uma delas.
Por fim, é indispensável reforçar que não existe qualquer antagonismo entre o Corpo de Bombeiros Militar e o SAMU. Não são instituições concorrentes, tampouco adversárias. Ao contrário, são estruturas que se complementam e que, historicamente, atuam com o mesmo propósito: salvar vidas. Eventuais decisões administrativas não podem ser interpretadas como conflito entre categorias, mas sim analisadas à luz da boa governança pública.
Integrar não é perder identidade. Integrar é somar forças. E, na prática, é isso que salva vidas.
Laudicério Machado é Sargento PM, Doutor em Administração pela Universidade Metodista de Piracicaba, pesquisador em Governança Pública e Gestão de Saúde, Mestre em Administração, especialista em Docência do Ensino Superior, graduado em Administração Hospitalar e Direito, Acadêmico em Ciências Sociais e Presidente do Conselho Fiscal da Federação Nacional de Praças e Presidente da ACS-MT (licenciado).