A Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) deteve três técnicos de enfermagem, com idades entre 22 e 28 anos, suspeitos de provocar a morte de pacientes internados na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Anchieta, em Taguatinga (DF). Os casos, ocorridos entre novembro e dezembro de 2025, estão sendo tratados como homicídios qualificados e apurados pela Operação Anúbis, batizada em referência ao deus associado à morte na mitologia egípcia.
Medicamentos inadequados
A sequência de crimes só veio à tona após o próprio hospital identificar circunstâncias consideradas atípicas em três óbitos e iniciar uma investigação interna que durou menos de 20 dias. Diante das evidências levantadas, a instituição denunciou o caso à polícia, o que levou à instauração do inquérito e à prisão temporária dos três ex‑funcionários em janeiro de 2026.
De acordo com a PCDF, um dos suspeitos teria utilizado o sistema eletrônico do hospital em nome de um médico para prescrever medicamentos inadequados aos quadros clínicos das vítimas, além de retirar os remédios na farmácia da unidade e aplicá‑los diretamente nos pacientes, sem autorização da equipe médica. Em um dos casos, o homem chegou a injetar um produto desinfetante por meio de seringa em um paciente ao menos dez vezes, conforme relatos da investigação.
A investigação aponta que a substância aplicada de forma irregular pode causar parada cardíaca em poucos minutos e, por ser de difícil detecção em exames iniciais, teria dificultado a identificação imediata dos homicídios, simulando causas naturais ou complicações clínicas comuns em pacientes graves.
Entre as vítimas estão uma professora aposentada de 67 anos, um servidor público de 63 anos e um homem de 33 anos.
Nota Oficial do Hospital
Em nota oficial, o Hospital Anchieta informou que tomou a iniciativa de investigar internamente os fatos após identificar “circunstâncias atípicas” em três óbitos na UTI, o que motivou a formação de um comitê para análise dos casos e a consequente abertura de investigação interna. A instituição ressaltou que conduziu a apuração com rapidez e rigor, reunindo evidências que foram encaminhadas às autoridades competentes para as medidas legais cabíveis.
Segundo o comunicado, o hospital agiu em cumprimento ao seu dever civil, ético e compromisso com a transparência, resultando na solicitação à Polícia Civil do Distrito Federal da instauração de inquérito e na adoção de medidas cautelares, incluindo a prisão cautelar dos envolvidos, que já haviam sido desligados da instituição nos dias 12 e 15 de janeiro de 2026.
“Ao identificar circunstâncias atípicas relacionadas a três óbitos ocorridos em sua Unidade de Terapia Intensiva, o Hospital instaurou, por iniciativa própria, em cumprimento ao seu dever civil, ético e ao seu compromisso com a transparência, comitê interno de análise e conduziu investigação célere e rigorosa, que em menos de vinte dias resultou na identificação de evidências envolvendo ex-técnicos de enfermagem, as quais foram formalmente encaminhadas às autoridades competentes”, disse o Anchieta em nota.
A unidade também afirmou ter entrado em contato com as famílias das vítimas, prestando esclarecimentos de forma responsável e acolhedora, e destacou que o caso tramita sob segredo de Justiça, o que impede a divulgação de informações adicionais e a identificação das partes envolvidas.
Operação Anúbis
As prisões foram realizadas em duas fases da Operação Anúbis: a primeira em 11 de janeiro, com mandados de prisão temporária e busca e apreensão em Taguatinga, Brazlândia e Águas Lindas de Goiás, e a segunda em 15 de janeiro, com novas ordens cumpridas em Ceilândia e Samambaia que resultaram na apreensão de equipamentos eletrônicos e documentos que agora passam por perícia.
Os três suspeitos negaram inicialmente participação nos crimes, mas alguns teriam confessado sob confronto das provas, sem, contudo, explicar a motivação dos atos, segundo a polícia.
O caso segue sob segredo de Justiça, o que limita a divulgação de detalhes e a identificação dos envolvidos, mas o hospital informou ter prestado suporte às famílias afetadas e reforçou seu compromisso com a segurança dos pacientes.
A PCDF continua as diligências para esclarecer a dinâmica dos fatos, responsabilidades e possíveis falhas nos protocolos internos que permitiram a atuação criminosa dentro da unidade de saúde.