VENDA DE SENTENÇAS; VEJA

PF vê Fource como "pilar" de esquema; Valdoir transferiu R$ 2 mi de conta pessoal a Zampieri

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PF vê Fource como "pilar" de esquema; Valdoir transferiu R$ 2 mi de conta pessoal a Zampieri
O advogado Roberto Zampieri e os sócios da Fource Valdoir Slapak e Haroldo Filho

Um relatório parcial da Polícia Federal enviado ao ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal, aponta o grupo Fource como um “pilar estrutural” no esquema de venda de decisões em tribunais estaduais e no Superior Tribunal de Justiça. O documento, obtido pelo Bastidor, acrescenta que o grupo exerce “papel central na operacionalização e na circulação dos valores ilícitos”. Em outras palavras, não era apenas um cliente do esquema.

A investigação descreve uma engrenagem que utilizava a chamada judicialização instrumental, em especial em recuperações judiciais e falências. A Fource atua em grandes processos – em valores e repercussão – como os do grupo Pupin, da camisaria Colombo, da Olvepar e do grupo Jesus Agropecuária. Este foi investigado na Operação Faroeste, que apura a venda de decisões judiciais no Tribunal de Justiça da Bahia.

Um dos modos de atuação da Fource, segundo a PF, envolvia a criação artificial de conflitos jurídicos para esquentar dinheiro. Uma vez resolvida a causa, com acordo ou desistência, eles tinham cobertura para movimentar valores de origem ilícita.

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O grupo Fource tem entre seus principais controladores os empresários Valdoir Slapak e Haroldo Augusto Filho. Segundo a PF, ambos são responsáveis por identificar demandas consideradas estratégias e por selecionar “casos com maior potencial econômico ou processual”.

Feita essa primeira etapa, eles entravam em contato com o advogado Roberto Zampieri, pivô do esquema e assassinado em dezembro de 2023. O advogado, então, acionava o lobista Andreson Gonçalves, principal personagem do esquema, que atuava junto a gabinetes do STJ.

A PF analisou arquivos que constavam em um computador apreendido com Valdoir. Nele, a PF localizou o arquivo “2. Patrimonio VS.xlsx”, uma planilha de controle financeiro que funcionava como um mapa das vantagens indevidas.

Um dos registros indica a rubrica “Contingencias Apelo e STJ” no valor de 20 milhões de reais acompanhada da seguinte frase: “Dado que o mm ira encerrar a RJ agora”. Para os investigadores, a sigla mm é uma referência clara ao magistrado responsável por uma recuperação judicial que estaria sendo negociada. Na mesma planilha, consta a anotação “MetLife – Proposta VS – Nao Aceitou”, associada ao valor de 25 milhões de reais, além de honorários advocatícios em patamares que a polícia considera fora da realidade do mercado.

A movimentação de recursos para irrigar o esquema, segundo a PF, contava com o suporte do Fundo de Investimento Afare I, usado pelo grupo Fource em processos em que atua.

O relatório detalha que o fundo foi utilizado para repassar 7,5 milhões de reais diretamente a Zampieri. Além desses valores, a empresa Fource realizou transferências diretas que somam 1,5 milhão de reais para o escritório do advogado entre os anos de 2020 e 2022.

Somente da conta pessoal de Valdoir, houve transferência de mais de 2 milhões de reais para Zampieri. Houve mais repasses, não detalhados pela PF, a partir de uma empresa do grupo Fource, a Global Trade Investimentos.

Os meios usados pelos empresários para as transferências foram o fundo Afare I, a Fource Participações, INFI Intermediações e Participações, Global Trade Investimentos, Midias Agro Invest e Jatoba S/A.

Para garantir que o fluxo financeiro escapasse dos radares tradicionais, a PF identificou que Valdoir utilizava hardware wallets da marca Secalot, dispositivos de alta segurança para a gestão de criptoativos.

A investigação apontou ainda que Haroldo, o sócio de Valdoir, autorizava pessoalmente o uso de aeronaves de luxo do grupo por Zampieri.

A próxima fase da investigação da PF busca confirmar se os milhões de reais que saíram da Fource e do fundo Afare I chegaram aos bolsos dos servidores investigados no STJ. A PF pediu a Zanin mais prazo para apurações. A solicitação veio após a Procuradoria-Geral da República afirmar que falta um lastro concreto que conecte diretamente as movimentações ao suborno.

Bastidor enviou à Fource na segunda-feira (23/03) seis perguntas sobre os indícios apontados pela PF no relatório. A reportagem questionou Valdoir sobre a planilha encontrada em seu computador com a indicação de pagamento na ordem de 20 milhões de reais, pediu detalhes do processo de recuperação judicial que era discutido e perguntou a respeito dos 25 milhões de reais que a MetLife não aceitou.

Em nota, a Fource disse que “o relatório, além de inconclusivo, baseia-se em mensagens descontextualizadas e sem respaldo técnico ou jurídico, ignorando a ausência de irregularidades efetivas”. Acrescentou que “após 15 meses de investigação, inclusive com sucessivos pedidos de prorrogação — alguns deles apresentados como improrrogáveis —, a Polícia Federal segue sem apresentar qualquer elemento concreto, limitando-se a ilações e interpretações subjetivas, sem indiciamento da empresa ou de seus sócios”.

Nota Oficial

Fource Consultoria A Fource Consultoria esclarece que o relatório mencionado pela reportagem em nenhum momento conclui pela participação da empresa ou de seus sócios nos fatos investigados.

Ao contrário, o próprio documento reconhece que não é possível mensurar eventual atuação, apontando a necessidade de diligências adicionais. Após 15 meses de investigação, inclusive com sucessivos pedidos de prorrogação — alguns deles apresentados como improrrogáveis —, a Polícia Federal segue sem apresentar qualquer elemento concreto, limitando-se a ilações e interpretações subjetivas, sem indiciamento da empresa ou de seus sócios.

O relatório, além de inconclusivo, baseia-se em mensagens descontextualizadas e sem respaldo técnico ou jurídico, ignorando a ausência de irregularidades efetivas. As análises partem de transações regularmente declaradas pelas partes, com impostos devidamente recolhidos e informações prestadas tempestivamente aos órgãos competentes.

A Fource confia que o Ministério Público e o Poder Judiciário se atenham aos fatos e às provas, assegurando a correta apuração. Reafirma sua atuação pautada pela legalidade, integridade e profissionalismo, e permanece à disposição das autoridades para o pleno esclarecimento dos fatos.

Fonte: Site O Bastidor

https://obastidor.com.br/investigacao/a-forca-do-esquema/