O depoimento de Sandra Cattani marcou um dos momentos mais emocionantes do Tribunal do Júri que julga os acusados pelo assassinato da produtora rural Raquel Maziero Cattani, nesta quinta-feira (22), no Fórum da Comarca de Nova Mutum. Visivelmente abalada, a mãe relatou em detalhes os últimos contatos com a filha e o instante em que encontrou o corpo dentro da residência.
Logo no início do depoimento, Sandra contou que estranhou o fato de Raquel não ter aparecido naquela manhã, como fazia rotineiramente. Preocupada, decidiu ir até a casa da filha para verificar o que havia ocorrido.
Ao chegar, encontrou a porta fechada. Quando entrou, deparou-se com Raquel caída no chão. “Pensei que ela tivesse passado mal ou sofrido uma queda. Tentei chamá-la e ajudá-la, mas o corpo já estava gelado e rígido”, relatou, emocionada.
Segundo a mãe, o choque foi imediato e a incredulidade tomou conta do momento. Ela afirmou que tentou levantar a filha e chamá-la pelo nome, mas, diante da situação, compreendeu que não havia mais o que fazer.
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Na sequência, Sandra relembrou o dia anterior ao crime e detalhou o distanciamento entre Raquel e o ex-marido, Romero Xavier Mengarde. De acordo com ela, embora ainda fossem casados formalmente, os dois estavam separados de fato havia cerca de 30 dias, e a filha demonstrava firmeza na decisão de não retomar o relacionamento.
Ela contou que, durante um almoço em família, Raquel evitou tirar fotos ao lado de Romero, evidenciando o afastamento. Após a refeição, a jovem retornou para casa, enquanto ficou combinado que o ex-companheiro buscaria as crianças para passarem a noite com a avó, em razão do aniversário de um dos filhos no dia seguinte.
Sandra também relatou que Romero chorou ao se despedir da família, atitude que chamou sua atenção. Mais tarde, no fim da tarde, ela encontrou a filha brevemente na vila, quando Raquel comentou sobre compromissos que teria no dia seguinte, incluindo provar um vestido antes de viajar. Esse foi o último contato presencial entre mãe e filha.
Durante o depoimento, Sandra afirmou ainda que, após a separação, Raquel passou a dormir com frequência na casa dos pais, evitando permanecer sozinha em sua residência. Segundo ela, a filha dizia estar emocionalmente cansada da relação e determinada a seguir em frente.
Durante a sessão, o Ministério Público fez um questionamento sensível à testemunha Sandra Cattani, sobre a situação dos filhos da vítima após o crime. Emocionada, ela relatou que as crianças estão sob os cuidados da família e sabem que a mãe morreu.
Segundo Sandra, os filhos sentem muita saudade e demonstram isso diariamente, lembrando dos momentos vividos com Raquel. A filha mais nova, conforme o relato, mantém forte vínculo com a memória da mãe, pede para ver fotos e vídeos no celular todas as noites e usa constantemente uma camiseta com referência à mãe, recusando-se a tirá-la.
“A gente percebe a falta que ela faz todos os dias. Eles lembram da rotina, das brincadeiras, do cuidado que ela tinha com eles”, afirmou.
Relação conturbada e comportamento controlador
Questionada sobre a separação de Raquel e Romero, Sandra contou que, inicialmente, ele não aceitava o fim do relacionamento, mas que, com o tempo, houve acordos informais sobre bens e cuidados com os filhos, sem formalização em cartório.
Ela também destacou que Rodrigo não tinha convivência com a família, não frequentava a comunidade e nunca participou de eventos familiares, como aniversários das crianças. Segundo seu conhecimento, os irmãos passaram anos sem contato, por decisão do próprio Romero.
Em outro momento do depoimento, Sandra revelou que Romero tinha acesso ao celular de Raquel sem autorização. De acordo com ela, ele chegou a expor conversas privadas da vítima com um amigo, retiradas do aparelho.
A testemunha também reconheceu o perfume encontrado na casa de Rodrigo como sendo o mesmo que havia presenteado Raquel, trazido de uma viagem. Segundo o relato, o objeto fazia parte dos pertences pessoais da vítima.
Sandra ainda afirmou que Romero acessava mensagens privadas da filha em grupos de WhatsApp da comunidade e chegou a mostrá-las a terceiros, sem o consentimento da vítima, o que, segundo ela, reforça o comportamento invasivo e controlador do réu.
Pagamento e esclarecimentos
Durante o depoimento, Sandra confirmou que, na semana do crime, o marido, Gilberto Cattani, realizou o pagamento de R$ 4 mil a Rodrigo, referente à construção de uma cerca na propriedade da família. Segundo ela, o valor foi pago no próprio dia, como acerto por um serviço já executado anteriormente.
Expectativa por justiça
Ao ser questionada sobre o que espera do julgamento, Sandra declarou: “Espero que Deus amenize a dor. A Raquel faz muita falta. Eu creio que vai ser feita justiça.”
Em seguida, completou: “O mínimo que espero é que sejam condenados e peguem a pena máxima, mas isso não vai trazer ela de volta.”
A mãe finalizou ressaltando o impacto do crime sobre os netos: “A gente só vê a dor dos outros até acontecer com a gente. Ele acabou com a vida dos filhos dela, tirou o direito de eles terem a mãe.”
O julgamento segue com a oitiva de testemunhas e debates entre acusação e defesa. Os irmãos Romero Xavier Mengarde e Rodrigo Xavier Mengarde respondem por homicídio qualificado, e o caso é considerado um dos mais emblemáticos do ano em Mato Grosso.