OPERAÇÃO "FIDES FRACTA"

“Juros de 50% e ameaças às vítimas”, diz delegado do Gaeco sobre esquema milionário envolvendo PMs

Paula Valéria, do FTN Brasil
· 3 min de leitura
“Juros de 50% e ameaças às vítimas”, diz delegado do Gaeco sobre esquema milionário envolvendo PMs
Foto: Paula Valéria

Na manhã desta quarta-feira (26), autoridades do Grupo de Atuação Especial contra o Crime Organizado (Gaeco) e da Polícia Militar apresentaram os primeiros resultados da Operação Fides Fracta, que investiga um grupo de policiais militares apontado como integrante de uma organização criminosa especializada em agiotagem, extorsão e lavagem de dinheiro. Segundo as apurações, o esquema teria movimentado mais de R$ 24 milhões.

A ação cumpre mandados de busca e apreensão em Cuiabá, Várzea Grande e Goiânia (GO), com o objetivo de interromper a atuação do grupo e fortalecer a coleta de provas. Durante cumprimento das ordens judiciais, cinco dos alvos foram presos em flagrante por porte ou posse ilegal de arma de fogo.

O promotor de Justiça do Gaeco, João Batista de Oliveira, explicou que a investigação surgiu a partir de um procedimento investigatório criminal, instaurado por promotores que antecederam a atual gestão. “Essa investigação foi compartilhada com o Gaeco e, paralelamente ao inquérito, houve a constatação de lavagem de capitais. No dia de hoje, demos cumprimento a diversos mandados de busca e apreensão para reforçar o inquérito policial e o PIC, com o objetivo de reunir novos elementos probatórios e desarticular efetivamente essa organização criminosa”, afirmou o promotor.

A investigação teve início em 2021, após a Corregedoria da Polícia Militar identificar sinais de enriquecimento ilícito entre alguns agentes. A partir daí, o Gaeco aprofundou o levantamento e descobriu que parte do dinheiro utilizado na agiotagem teria origem em uma empresa de compra e venda de veículos. Segundo a investigação, o responsável pelo estabelecimento simulava financiamentos, recebia o valor da falsa venda do automóvel e usava o dinheiro para conceder empréstimos com juros elevados.

O delegado do Gaeco, Hércules Batista Gonçalves, detalhou o modo de atuação do grupo investigado, apontando que o esquema vinha se consolidando com o passar do tempo.

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“Essa investigação foi amadurecendo ao longo dos meses. O que se descortinou foi uma organização criminosa voltada para a usura, a extorsão e o emprego de violência contra pessoas que não conseguiam pagar seus empréstimos. Essa estrutura tinha como líder um ex-policial militar, mas também contava com policiais da ativa”, declarou Hércules.

Dos investigados, seis são policiais da ativa, dois estão aposentados e um pediu exoneração do cargo. Este último, identificado como T.A.S., é apontado como o líder do esquema. Conforme explicado na coletiva, outros envolvidos, que não fazem parte da corporação, seriam familiares e amigos dos policiais, responsáveis por ocultar o capital ilícito e auxiliar na lavagem de dinheiro.

As investigações apontaram que o grupo realizava empréstimos ilegais de pessoa física para pessoa física e chegava a cobrar juros de até 50% ao mês, índice considerado abusivo pelas autoridades.

“Alguns empréstimos chegavam ao absurdo de 50% ao mês, enquanto para colegas de farda eram aplicados ‘juros simbólicos’ de 15%. Era uma busca de lucro a todo custo, com todos os meios empregados para atingir os objetivos financeiros da organização”, disse Gonçalves.

Além disso, a polícia identificou a atuação de cobradores vinculados à organização, que tinham a função de pressionar as vítimas para pagamento das dívidas. As cobranças eram feitas, segundo o Gaeco, com grave ameaça e, em alguns casos, violência.

“Há diversos boletins de ocorrência que relatam casos de extorsão com emprego de violência e até tortura. Em um dos episódios, uma vítima foi torturada por vários integrantes do grupo para que efetuasse o pagamento da dívida”, revelou o delegado do Gaeco.

A investigação também identificou movimentações financeiras milionárias, o que resultou no sequestro de veículos e imóveis, além do bloqueio de bens no limite de até R$ 1 milhão por investigado. Durante o cumprimento dos mandados, foram apreendidas armas de fogo que, segundo o delegado, eram utilizadas para intimidar e ameaçar as vítimas.

O Gaeco afirmou que a operação continua em andamento, com análise de materiais apreendidos e novas frentes de apuração. As autoridades ressaltaram que a conduta dos investigados não representa a corporação e que a credibilidade da Polícia Militar permanece preservada.

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