DECADÊNCIA DO IMPÉRIO

Falência do Grupo Pupin expõe suspeitas de fraudes, desvios e conexão com operação da PF

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Falência do Grupo Pupin expõe suspeitas de fraudes, desvios e conexão com operação da PF

Após anos em recuperação judicial, o império do empresário José Pupin, conhecido no agronegócio como Rei do Algodão, ruiu sob o peso de dívidas bilionárias e de investigações que apontam possíveis fraudes e desvio de patrimônio. O colapso do Grupo Pupin coincide com desdobramentos da maior operação da Polícia Federal contra a suposta venda de decisões judiciais, que envolve magistrados do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJ-MT) e do Superior Tribunal de Justiça (STJ).

A derrocada ganhou novos contornos após a Operação Sisamnes, iniciada em 2023, quando o assassinato do advogado Roberto Zampieri, em Cuiabá, levou a PF a localizar no celular da vítima mensagens e documentos que indicariam negociações para compra de decisões judiciais. Entre as conversas encontradas está um diálogo com Haroldo Filho, do Grupo Fource, tratando de supostas sentenças que beneficiariam o Grupo Pupin.

O caso passou ao Supremo Tribunal Federal (STF), sob relatoria do ministro Cristiano Zanin, em razão do possível envolvimento de autoridades com foro privilegiado.

Paralelamente às investigações, o próprio José Pupin acionou a Justiça contra o Grupo Fource, alegando que a empresa buscava assumir o controle patrimonial do conglomerado e teria desviado recursos sob o argumento de promover sua reestruturação financeira.

Durante décadas, Pupin foi um dos maiores produtores de algodão do Brasil, chegando a cultivar cerca de 110 mil hectares — área comparável à da cidade do Rio de Janeiro. O declínio, porém, começou em 2014, após a perda de uma fazenda de 45 mil hectares em Paranatinga, usada como garantia em um empréstimo de US$ 100 milhões que não foi quitado.

O pedido formal de recuperação judicial foi apresentado em 2017. Entre os credores estão grandes bancos nacionais e internacionais — como Banco do Brasil, Votorantim, Santander, ABC Brasil, Rabobank e Eximbank — além de gigantes do agronegócio, incluindo John Deere, Cargill, Bayer e Syngenta.

Ao longo do processo, 19 imóveis foram vendidos por decisão judicial, incluindo três grandes fazendas. Desde 2019, o grupo deixou de operar diretamente no campo e passou a sobreviver do arrendamento das propriedades. Hoje, os ativos somam cerca de R$ 2,89 bilhões, enquanto as dívidas podem ultrapassar R$ 5 bilhões.

Credores contestam o uso de parte do patrimônio da empresa durante a recuperação judicial. Segundo apontam, recursos que deveriam ser destinados ao pagamento das dívidas do grupo teriam sido utilizados para quitar obrigações pessoais de membros da família Pupin. As suspeitas incluem movimentações consideradas atípicas, que somam R$ 430 milhões, além de transferências de R$ 95 milhões a familiares sem documentação comprobatória.

Diante do cenário, os credores aprovaram a falência do Grupo Pupin em assembleia realizada no início de dezembro. A decisão agora segue para análise da 1ª Vara Cível de Campo Verde, responsável pela condução do processo.