Natural do Paraná, Igor Stelmastchuk Nogari sempre demonstrou curiosidade e dedicação pela ciência. Essa vocação ganhou novos contornos quando ele ingressou no curso de Medicina da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), em Cuiabá, tornando-se o primeiro estudante com deficiência visual nos 46 anos de história da faculdade.
No dia 19 de setembro, Igor foi homenageado em uma cerimônia simbólica realizada na biblioteca da universidade, em reconhecimento à sua trajetória acadêmica e à superação pessoal.
“A medicina vem com amor e eu acredito que, quando se ama a medicina, também se ama a humanidade. É o ato de cuidar, de se dedicar à qualidade de vida e ao bem-estar coletivo. Não dá para cuidar de uma população toda, mas eu posso cuidar por 40 minutos de uma consulta de uma pessoa que necessita daquilo que eu possa oferecer", disse Igor.
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O evento marcou mais do que uma conquista: representou uma vitória sobre o preconceito e a falta de acessibilidade ainda presentes no ensino superior.
“Eu ouvi esse tipo de frase numa reunião do colegiado: “Eu não sei como você vai fazer para cursar Medicina se você não enxerga, sinceramente. Eu não sei mesmo. Eu não sei o que você está fazendo aqui”, relembrou Igor.
Diagnosticado com síndrome de Stargardt - uma doença genética rara que provoca a degeneração progressiva da mácula, região central da retina responsável pela visão nítida e detalhada -, Igor perdeu cerca de 80% da visão aos oito anos de idade. Desde então, aprendeu a lidar com as limitações visuais e a adaptar sua forma de estudar. Segundo ele, o maior desafio não foi a deficiência em si, mas a resistência das pessoas.
“Acho que o problema de não enxergar não era o foco da minha guerra dentro da Medicina. A dificuldade de ler livros, isso tudo eu já tinha superado no ensino fundamental. Minha guerra interna, de tentar superar os obstáculos de ser uma pessoa com deficiência, aconteceu quando perdi a visão. Eu tive 20 anos de deficiente visual bem preparado", disse.
"A guerra foi até o final, e eu venci. A homenagem foi só a prova de que consegui superar tudo, superar eles”, afirmou.
Apesar das dificuldades, Igor reconhece o apoio da UFMT como instituição, embora destaque que o acolhimento dentro da Faculdade de Medicina ainda precisa avançar.
“A acessibilidade de pessoas com deficiência, 95% das vezes, não é uma questão de dinheiro. Não é só comprar material, investir em piso tátil, corrimão ou escadas adaptadas", afirmou.
Além da medicina, novas vocações
Durante sua jornada em Cuiabá, Igor também encontrou espaço para desenvolver outras paixões. Entre as atividades que marcaram sua passagem pela capital mato-grossense estão apresentações de stand-up comedy e o trabalho como professor de cursinhos e aulas particulares, experiências que reforçaram seu interesse pela educação.
De volta ao Paraná, Igor planeja retornar a Cuiabá para dar continuidade à formação médica e buscar uma vaga em um programa de residência.
Entre conquistas e desafios, a história de Igor Nogari é um lembrete de que a verdadeira acessibilidade começa com empatia, atitude e escuta, valores fundamentais para uma universidade realmente inclusiva.