O motorista de aplicativo Daferson da Silva Nunes, de 34 anos, foi torturado e assassinado por membros de uma facção criminosa após tentar se defender de uma acusação de estupro, segundo informações da Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP). O corpo foi encontrado na manhã de quarta-feira (22), em uma estrada vicinal da Guia, zona rural de Cuiabá (MT).
De acordo com o delegado Michel Paes, que concedeu entrevista coletiva nesta quinta-feira (23), Daferson procurou integrantes do grupo criminoso acreditando que poderia esclarecer o caso. “Ele achava que seria ouvido, mas foi mantido em cativeiro e torturado por cerca de seis horas”, relatou o delegado.
A acusação contra o motorista surgiu na noite de segunda-feira (20), durante uma corrida por aplicativo no bairro Jardim Glória, em Várzea Grande. A passageira relatou ter sido vítima de abuso sexual. Exames preliminares apontaram a presença de sêmen nas roupas e no corpo da mulher, mas o laudo genético definitivo ainda está em análise e não há confirmação de que o material pertença a Daferson.
As investigações apontam que, após a ampla repercussão da acusação em redes sociais e aplicativos de mensagens, Daferson buscou demonstrar inocência. Ele chegou a registrar boletim de ocorrência e procurou integrantes da facção para prestar esclarecimentos, mas foi enganado e capturado pelos criminosos.
“Ele foi vítima das redes sociais. Quando começaram os boatos de que ele seria morto, tentou se defender. Foi ao encontro deles achando que seria ouvido, mas acabou sendo sequestrado e torturado até a morte”, explicou Paes.
A perícia constatou que Daferson apresentava marcas de espancamento, roupas rasgadas e estava amarrada pelos braços e pernas, sinais de que foi agredida por um longo período antes de morrer.
“A forma como ele foi encontrado mostra que sofreu agressões por horas. Ele foi amarrado, arrastado, espancado. É uma cena de barbárie”, disse o delegado.
Durante a coletiva, Paes criticou duramente a ideia de “justiceiros” e ressaltou que apenas o Estado tem legitimidade para investigar e aplicar a lei.
“Essas pessoas estão usurpando o papel do Estado. Elas se dizem do bem, mas são criminosas. Vivemos em um Estado Democrático de Direito, não na barbárie. Fazer justiça com as próprias mãos é crime”, declarou.
Ele também destacou que o fenômeno preocupa as forças de segurança, especialmente nas áreas mais periféricas, onde facções têm imposto regras e espalhado o medo.
“A sociedade está refém. Eles mandam e desmandam, escolhem quem vive e quem morre. Precisamos que a população não apoie esse tipo de comportamento. O Estado, sozinho, não vai conseguir enfrentar se as pessoas continuarem aplaudindo esses atos”, alertou.
A Polícia Civil segue com as investigações para localizar os autores e esclarecer todas as circunstâncias do crime.