Quando visitou Chongqing pela primeira vez, em novembro passado, Joshua Guvi estava receoso: será que a cidade que ele via nas redes sociais era realmente tão impressionante ao vivo? Espalhada por uma região montanhosa no sudoeste da China, essa metrópole gigantesca é conhecida por sua geografia intricada e seu urbanismo vertical, o que rendeu a ela o apelido de “cidade 8D”.
Considerando também suas áreas rurais, Chongqing tem o tamanho da Áustria. Sem litoral e com um crescimento acelerado, a cidade não teve opção a não ser crescer para cima — tanto que um de seus prédios tem até um trem passando bem no meio.
Para turistas e até mesmo moradores —, se perder em meio às ruas labirínticas e cenários surreais de Chongqing faz parte da experiência.
“Na verdade, superou todas as minhas expectativas”, diz Guvi, criador de conteúdo de viagem canadense. Ele registrou suas descobertas em um vídeo no YouTube, onde descreveu: “Chongqing parece uma janela para o futuro. Cheia de neon, em movimento constante. Essa cidade tem vida própria.”
De destino pouco conhecido a parada obrigatória
A fama de Chongqing está crescendo. Guvi começou sua viagem em Xangai, mas logo quis explorar um lugar que considerasse mais genuinamente chinês.
“Ouvi algumas pessoas comentando sobre Chongqing enquanto eu estava em Xangai... Xangai é incrível, mas eu queria conhecer uma China mais autêntica — um lugar onde não fosse possível se virar só com inglês”, conta.
E ele não é o único. Muitos turistas vêm deixando de lado cidades mais tradicionais, como Pequim e Xi’an, para visitar Chongqing. Desde que a China reabriu suas fronteiras no pós-pandemia, o turismo na cidade disparou.
Redes sociais são a principal vitrine para os viajantes mais jovens. Um vídeo viral no Instagram, que mostra um prédio no qual o “térreo” é, na verdade, o 12º andar, já ultrapassou 17 milhões de visualizações.
Segundo dados do governo local, Chongqing recebeu cerca de 1,3 milhão de turistas internacionais em 2024 — um aumento de 184% em relação ao ano anterior. Só nos dois primeiros meses de 2025, o número de estrangeiros que entraram por seus portos cresceu 60% na comparação anual, conforme o Departamento de Imigração da cidade.
Li Tian, gerente de uma agência de viagens local, diz que o interesse viral gera um aumento de 20% a 30% no número de visitantes estrangeiros. “Recebemos mais de 20 mil turistas por ano, e os internacionais agora representam cerca de 10%. O cenário para o turismo internacional é muito promissor.”
Para atender à demanda crescente, a agência passou a oferecer tours em inglês, espanhol, tailandês, japonês e coreano. Segundo Li, a maioria dos turistas estrangeiros costuma ficar cerca de cinco dias na cidade.
A proximidade geográfica e as passagens acessíveis fazem com que a maioria dos visitantes venha do Sudeste Asiático, Japão e Coreia do Sul — embora turistas da Europa e da Austrália também estejam aumentando.
O destaque, no entanto, vai para os americanos, que hoje são os que mais viajam para Chongqing, apesar de só existir um voo direto dos Estados Unidos, operado semanalmente pela Hainan Airlines.
“No momento, os EUA são nosso maior mercado, representando cerca de 20% da clientela — já são várias centenas de pessoas”, conta Chen Ming, fundador de uma agência de turismo personalizada criada no segundo semestre do ano passado.
A empresa de Chen oferece experiências sob medida — de meio-dia ou dia inteiro — para pequenos grupos de até quatro pessoas. “No primeiro mês, tivemos poucos pedidos. No segundo, talvez uma dúzia. Agora, recebemos centenas de reservas por mês.”
Ele conta que a demanda varia ao longo do ano: junho tende a ser mais tranquilo, enquanto dezembro e abril (Natal e férias de primavera no hemisfério norte) são os períodos mais agitados.
Entre os roteiros mais populares oferecidos pela agência estão caminhadas por vilarejos antigos, trilhas cênicas e até um tour temático que refaz o trajeto de IShowSpeed — youtuber americano que viralizou ao visitar Chongqing em abril.
Outras atrações incluem uma antiga usina nuclear desativada, os relevos esculpidos nas pedras de Dazu e as famosas Três Pontes Naturais de Wulong — cenário do filme “Transformers 4”.
Um sonho cyberpunk
Tentar definir a arquitetura de Chongqing não é tarefa fácil. Muitos a comparam ao estilo “cyberpunk” — subgênero de ficção científica ambientado em sociedades futuristas, dominadas por tecnologia e caos urbano.
“A arquitetura de Chongqing é única”, diz Matthew Blair, americano de 34 anos que mora na cidade desde 2009. “O concreto, o relevo acidentado e o design industrial fazem parecer um cenário de filme futurista — e à noite, tudo se ilumina, transformando a cidade num verdadeiro sonho cyberpunk.”
Wan Linxin, guia turístico freelancer de 27 anos, nascido em Chongqing e ex-estudante nos EUA, recentemente conduziu um grupo de 20 universitários americanos pela cidade.
“Quando descobri que eram estudantes, peguei meu chapéu de palha do Luffy”, diz ele, em referência ao personagem do anime One Piece. “Como o grupo era grande, eu precisava de algo para eles me reconhecerem de longe. Quando levantava o chapéu, eles gritavam ‘Luffy’ e me seguiam.”
O roteiro incluiu escadas rolantes ao ar livre, viadutos de 20 andares e o famoso Edifício Kui Xing — cujo terraço funciona como uma praça pública.
“Eles me faziam mil perguntas”, lembra Wan. “‘Como o 8º andar de um prédio se conecta ao térreo de outro?’ ou ‘O trem passando dentro do prédio incomoda os moradores?’ e ainda ‘Por que algumas janelas são cercadas por grades?’”
Essas excentricidades urbanas não são apenas estéticas — são soluções práticas. Localizada entre os rios Jialing e Yangtzé, Chongqing é chamada de “Cidade das Montanhas” por um bom motivo: com mais de 32 milhões de habitantes, se espalha por desfiladeiros, encostas, vales e uma paisagem urbana que sobe e desce centenas de metros.
Como é impossível aplicar um planejamento urbano tradicional, a cidade passou a organizar suas funções de forma vertical: ruas, metrôs, edifícios, áreas comerciais, jardins suspensos e praças de pedestres são empilhados segundo a topografia.
É por isso que muitos edifícios têm entradas em diferentes andares — dependendo da rua em que você chega. Um mesmo prédio pode ter acesso no 1º, 12º ou 20º andar. Essa lógica impressionante é chamada por muitos de “Espaço 8D”.
Wan levou os estudantes à estação de monotrilho Liziba, um dos marcos arquitetônicos mais emblemáticos de Chongqing, onde o trem atravessa literalmente um edifício residencial embutido no morro, às margens do Yangtzé.
“Foi nesse momento que percebi o que há de mais gratificante em ser guia: redescobrir sua própria cidade pelos olhos de quem a vê pela primeira vez.”
Mais que arquitetura: comida, história e futuro
Além da paisagem dramática, o que prende Blair em Chongqing há 15 anos é a comida.
“A comida de rua, os espetinhos de madrugada e os restaurantes de hot pot abertos até às 2 da manhã tornam tudo ainda mais especial — e delicioso”, diz. “Os locais são tão intensos quanto a pimenta. São generosos, barulhentos, cheios de vida — e fazem você querer fazer parte disso.”
Assim como Pequim e Xangai, Chongqing é uma das quatro cidades administradas diretamente pelo governo central da China. Embora pouco conhecida internacionalmente, ela é a quinta maior economia do país e, em 2024, ultrapassou Guangzhou, ficando atrás apenas de Xangai, Pequim e Shenzhen.
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A cidade sempre foi estratégica na campanha do governo chinês para desenvolver o interior do país. Durante a Segunda Guerra Mundial, chegou a ser capital provisória da China devido a sua geografia montanhosa e difícil de invadir.
Hoje, antigas instalações militares e antigas embaixadas convivem com a vida cotidiana — incluindo restaurantes de hot pot instalados em antigos abrigos antiaéreos.
Com a fama internacional em alta, o governo local tem investido pesado em infraestrutura e turismo.
Em junho de 2025, a cidade inaugurou sua nova estação de trem de alta velocidade, com 1,22 milhão de metros quadrados — equivalente a 170 campos de futebol. É, possivelmente, a maior estação do mundo construída de uma só vez.
E a paisagem noturna de Chongqing, com seus prédios iluminados, também foi cuidadosamente planejada. Segundo Zhao Wenjing, moradora de 41 anos, esse projeto começou há décadas, mas ganhou força a partir de 2019, quando o governo passou a instalar sistemas de iluminação em fachadas e pontos turísticos.
Desde o ano passado, Chongqing tem um plano coordenado de iluminação para os bairros centrais, com mirantes novos sendo criados em diferentes alturas e ângulos. Shows com drones, luzes e fogos de artifício fazem parte da agenda cultural da cidade.
Durante a alta temporada, os próprios moradores recebem mensagens pedindo, gentilmente, que evitem sair para deixar espaço para os turistas.
“Tenho certeza de que cada vez mais estrangeiros virão para cá”, diz Zhao. “Afinal, Chongqing tem uma energia que você não encontra em nenhum outro lugar do mundo.”
O futuro é agora
Além de tudo isso, o governo chinês facilita a entrada de estrangeiros. Desde dezembro de 2023, cidadãos da França, Alemanha, Itália, Holanda, Espanha e Malásia não precisam mais de visto. Em junho de 2025, o número de países com entrada isenta de visto chegou a 47 — e são 54 ao todo com algum tipo de facilitação de entrada.
Segundo o departamento de imigração local, a chegada de turistas por meio dessas novas políticas cresceu 245% nos dois primeiros meses de 2025.
Joshua Guvi, o criador canadense, garante: recomendaria Chongqing a qualquer pessoa. “A única coisa de que me arrependo”, diz ele, “é de não ter ficado mais tempo.”