Um trabalho investigativo que se estendeu por três anos culminou na deflagração da Operação Pentágono, realizada pela Polícia Civil de Mato Grosso na última quinta-feira (9), com foco na desarticulação do grupo responsável pelo ataque à transportadora de valores Brinks, em Confresa, em abril de 2023.
A ofensiva policial foi executada exatamente na data que marca os três anos do crime, considerado um dos mais violentos já registrados no estado. A investigação, conduzida pela Gerência de Combate ao Crime Organizado (GCCO), revelou uma estrutura criminosa altamente organizada, com atuação em diferentes regiões do país e divisão estratégica de funções entre os integrantes.
As apurações apontam que o ataque não foi uma ação isolada, mas sim uma operação planejada por um grupo com ramificações interestaduais, ligado a redes criminosas com histórico em roubos de grande porte. O trabalho investigativo envolveu análise de dados, inteligência policial e cooperação entre forças de segurança de diversos estados, como São Paulo, Pará, Maranhão, Tocantins e Rio Grande do Norte.
O crime em Confresa
O ataque à transportadora de valores da empresa Brinks, em Confresa, em abril de 2023, foi uma ação altamente planejada no estilo “domínio de cidades”, conhecido como “novo cangaço”, marcada pelo uso de armamento pesado, explosivos e estratégias para sitiar o município. Cerca de 20 criminosos fortemente armados sitiaram o município, invadiram o quartel da Polícia Militar, incendiaram prédios e espalharam terror para dificultar a reação das forças de segurança. Em seguida, o grupo tentou explodir o cofre da empresa para roubar cerca de R$ 30 milhões, mas não conseguiu e acabou fugindo após intensa mobilização policial.
Após o ataque em Confresa, as forças de segurança iniciaram uma grande operação integrada envolvendo policiais de Mato Grosso, Tocantins, Goiás e Pará. A ofensiva mobilizou dezenas de equipes especializadas e chegou a reunir cerca de 350 agentes em uma força-tarefa para localizar os criminosos.
Durante as buscas, houve confrontos em áreas rurais, resultando na morte de vários suspeitos e na prisão de pelo menos um integrante da quadrilha. Também foram apreendidos armamentos de alto calibre, munições, explosivos e equipamentos táticos utilizados no ataque.
A operação se estendeu por vários dias e contou com cerco em regiões de fuga, reforçando a atuação conjunta entre estados no combate ao crime organizado
Cúpula financeira
Ao longo da investigação da GCCO, os policiais identificaram núcleos distintos dentro da organização, responsáveis pelo comando financeiro, logística, execução e apoio operacional. O grupo também utilizava empresas de fachada, veículos locados e movimentações financeiras complexas para tentar ocultar a origem dos recursos ilícitos.
Um dos pontos centrais do esquema era a chamada “cúpula financeira”, responsável por financiar a estrutura do ataque e coordenar os pagamentos e a logística. No topo da pirâmide do grupo criminoso, a investigação identificou Francivaldo Moreira Pontes, vulgo "Velho Ban", que atuou na liderança operacional e financeira do ataque a Confresa, determinando ações, arregimentando fuzis e direcionando pagamentos.
Notícias exclusivas no WhatsApp acessando o link: (clique aqui)
Seja nosso seguidor no Instagram (clique aqui)
Seja nosso seguidor no X antigo Twiter (clique aqui)
Francivaldo era um dos assaltantes de banco mais antigos e procurados do país, apontado como líder de organização criminosa envolvida em ataques violentos. Foragido desde 2015, utilizava identidades falsas para se esconder e atuar em diferentes estados, financiando crimes e estruturando operações com armamento pesado. As investigações também indicaram que ele movimentava dinheiro ilícito por meio de esquemas de lavagem ligados a gado e propriedades rurais.
A caçada a “Velho Ban” terminou em novembro de 2024, quando ele morreu após reagir a uma operação policial no Pará. Ao seu lado na cúpula do grupo estava “Pinga”, criminoso ligado ao “Novo Cangaço” e a grandes ataques no país. Mesmo preso anteriormente, ele foi apontado como responsável por estruturar a logística do crime em Confresa, plano que continuou sendo executado pela quadrilha.
Núcleo de Execução
A ação violenta em Confresa foi executada por criminosos de alta periculosidade, entre eles J.C.M., que viajou de São Paulo para integrar o ataque. Após o roubo frustrado, ele morreu em confronto com as forças de segurança no Tocantins. As investigações também revelaram ligação direta da quadrilha com o alto escalão de uma facção criminosa, incluindo conexões com integrantes envolvidos em planos contra autoridades públicas.
Segundo a Polícia Civil, o objetivo da operação é desarticular completamente a estrutura criminosa, responsabilizando todos os envolvidos, desde financiadores até executores, e enfraquecer redes interestaduais de crime organizado que atuam no país. A ação contou com o cumprimento simultâneo de dezenas de mandados judiciais em diferentes estados, ampliando o alcance da investigação.
Segundo o delegado titular da GCCO, Gustavo Colognesi Belão, por meio da união da inteligência investigativa cibernética com o trabalho tático de campo, foi possível mapear desde a movimentação financeira ilícita no Maranhão até os abrigos logísticos no Pará e em São Paulo. Para ele, com a deflagração da operação, a Polícia Civil demonstra, de forma inequívoca, que o estado de Mato Grosso não é terreno fértil para esse tipo de crime.
“Não lidamos com criminosos comuns; enfrentamos arquitetos do caos que já sitiaram cidades, construíram túneis para roubar bilhões e planejaram ceifar a vida de autoridades da República. Contudo, a resposta do Estado é implacável. A desarticulação dessa cúpula envia uma mensagem clara às facções: o rastreio do dinheiro e a análise forense rigorosa não deixam impunes aqueles que ousam atentar contra as instituições democráticas e a paz social", disse.
A investigação segue em andamento, com novas diligências previstas para aprofundar a identificação de outros possíveis integrantes do grupo criminoso.