"TODES NÃO EXISTE"

Abilio rebate crítica do MPF após interromper professora por uso de linguagem neutra

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Abilio rebate crítica do MPF após interromper professora por uso de linguagem neutra

O prefeito de Cuiabá, Abilio Brunini (PL), se pronunciou neste domingo (3) em suas redes sociais, após ter sua conduta duramente criticada pelo Ministério Público Federal em Mato Grosso (MPF/MT) e pela Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão (PRDC). As instituições emitiram uma nota oficial repudiando a postura do gestor municipal durante a 15ª Conferência Municipal de Saúde, realizada na última quarta-feira (30).

Durante o evento, a professora e doutora em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo (USP), Maria Inês da Silva Barbosa, teve sua fala interrompida por Brunini ao iniciar a apresentação com linguagem neutra; "todes". O MPF considerou a ação do prefeito uma violação ao direito de liberdade de expressão, destacando que a palestrante foi impedida de participar plenamente de um espaço público destinado ao diálogo democrático e coletivo.

Em resposta à manifestação do MPF, Brunini alegou que compreende o teor político da nota, mas justificou sua intervenção com argumentos linguísticos e de acessibilidade. Segundo ele, o uso da palavra “todos” representa a forma correta, reconhecida pela norma culta da língua portuguesa. O prefeito ainda afirmou que o uso de termos como “todes” pode dificultar a compreensão de pessoas com deficiência auditiva ou dislexia.

Abilio também afirmou que a própria professora teria admitido, em entrevista à imprensa local, que sua fala tinha caráter político e militante.

“Não é razoável que uma entidade séria como o Ministério Público Federal, com brilhantes promotores, defenda sem plausível justificativa, a distorção da língua portuguesa, a militância política na discussão da saúde pública e a exclusão das pessoas com dislexia na universidade só acesso a saúde”, escreveu.
"Por fim, TODES não existe", concluiu o prefeito de Cuiabá.

Acompanhe a publicação do prefeito:

A nota do MPF, por sua vez, reafirma solidariedade à professora Maria Inês e destaca que a atitude do prefeito, ao impedir a fala de uma mulher negra, pesquisadora e ativista, configura um atentado aos princípios democráticos e à construção de políticas públicas inclusivas.

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Leia a nota do MPF na íntegra

O MPF/MT e a PRDC manifestam sua solidariedade à professora Maria Inês da Silva Barbosa e ressalta a importância de assegurar que todas as pessoas possam manifestar suas perspectivas em espaços de construção coletiva, em conformidade com os princípios democráticos.

O Ministério Público Federal em Mato Grosso (MPF/MT) e a Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão manifestam-se publicamente a respeito dos eventos ocorridos durante a 15ª Conferência Municipal de Saúde de Cuiabá, na última quarta-feira, 30 de julho de 2025. O evento foi marcado pela interrupção da participação da professora Maria Inês da Silva Barbosa, docente da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e doutora em Saúde Pública.

A atuação do prefeito de Cuiabá, Abílio Brunini, que resultou na retirada da professora Maria Inês, é condenada pelo MPF/MT e pela PRDC. O incidente decorreu do uso de linguagem inclusiva pela palestrante em sua saudação inicial em uma conferência sobre saúde pública, que tem entre os seus fundamentos constitucionais o “acesso universal e igualitário” (art. 196 da CF/88).

O MPF/MT e a PRDC reiteram seu compromisso com a defesa dos direitos fundamentais, da diversidade e da inclusão. A conduta do chefe do executivo municipal de Cuiabá, ao calar uma mulher negra, pesquisadora e ativista, em um espaço de construção coletiva, é um ataque à democracia e aos princípios que regem a sociedade brasileira.

A instituição manifesta sua solidariedade à professora Maria Inês da Silva Barbosa e ressalta a importância de assegurar que todas as pessoas possam manifestar suas perspectivas em espaços de construção coletiva, em conformidade com os princípios democráticos.

Cuiabá, 1º de agosto de 2025.
Ministério Público Federal em Mato Grosso

Abrasme e Odara também repudiam conduta de prefeito

A Associação Brasileira de Saúde Mental (Abrasme) saiu em defesa da professora Maria Inês da Silva Barbosa e condenou a postura do prefeito Abilio durante a conferência.

Em nota, a entidade classificou como inaceitável que representantes eleitos se coloquem acima das leis federais e das diretrizes do Sistema Único de Saúde (SUS), elaborado pelo Ministério da Saúde. “Esses representantes não são donos dos municípios e não devem impor suas próprias regras em detrimento dos direitos assegurados à população”, afirma o texto.

A Abrasme destacou ainda que a professora foi constrangida ao utilizar linguagem neutra ao afirmar que “o SUS é de todES”, sendo ameaçada de expulsão pelo prefeito. Diante da intimidação, optou por deixar o evento.

Outra entidade que prestou solidariedade à professora foi o Instituto da Mulher Negra (Odara), organização baiana criada por e para mulheres negras, com mais de uma década de atuação na promoção dos direitos das mulheres negras e da justiça social.

“Este episódio trata-se de uma ação racista, misógina e autoritária, que se soma a outros posicionamentos perigosos e desinformativos do prefeito de Cuiabá”, disse o instituto Odara, que fez menção a uma declaração de Brunini, de 2020, afirmando a ineficácia da vacina contra a covid-19.

O instituto ainda ressalta que em 2023, Abilio foi acusado de fazer um gesto associado ao supremacismo branco durante sessão da CPMI dos Atos Golpistas. "Esses fatos revelam um padrão de atuação baseado na desinformação, no negacionismo científico e na violência, incompatível com qualquer compromisso verdadeiro com a saúde pública e com a democracia”, continua a nota.

Nota da Prefeitura de Cuiabá

Em nota, a prefeitura de Cuiabá disse que, por orientação direta do prefeito Abilio Brunini, não será permitido o uso de linguagem neutra em eventos e espaços institucionais patrocinados pelo Poder Executivo Municipal. A justificativa utilizada foi a de “compromisso com a preservação da norma culta da língua portuguesa e na neutralidade ideológica das ações públicas”.

Segundo a nota, antes mesmo do início da palestra, o prefeito solicitou que a apresentação fosse ajustada de acordo com os padrões da comunicação oficial da prefeitura.

Ainda de acordo com a nota, na ocasião, "o prefeito reforçou que todas as pessoas têm espaço garantido na gestão municipal, independentemente de raça, orientação sexual, religião ou posicionamento político."

“No entanto, destacou que manifestações ideológicas, de qualquer vertente, não devem interferir na condução técnica das políticas públicas nem na linguagem adotada nas ações oficiais do Executivo”, diz o texto, que finaliza afirmando que a prefeitura tem compromisso com o respeito, a inclusão e a transparência, assegurando que o debate democrático se mantenha aberto, “mas sempre dentro dos princípios que regem a administração pública.”